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há bananas em janeiro

por M.J., em 19.02.18

confesso: sigo o festival da canção.

talvez tenha parado de ver ali nos anos em que a luciana abreu foi de saia esquisita e gritos lancinantes acompanhada de um mocinho de voz grossa, representar-nos.

mas cresci na popularidade do festival, na madrugada do depois do adeus, no filho feito por gosto, no silêncio e tanta gente (a minha preferida de sempre), e etecetera, etecetera.

 

no ano passado apaixonei-me pela música dos manos sobral.

achei mesmo que a inconveniência do moço, a irreverência, aquele transmitir de "que raio estou eu a fazer aqui em vez de fumar umas brocas?" eram refrescantes e acabavam com a piroseira dos anos anteriores.

é claro que o português do fado, fátima e futebol (e agora da kizomba) não gostou. uma nabice, clamaram as vozes, onde já viu, gritou o mundo. ainda se fosse a sabrina e o emanuel!

ou o grande toni, com os seus originais!

não foi e o moço ganhou.

e eu vivi a coisa como um fanático do futebol quando portugal ganhou com os golos do outro (que isso nem vi) e fez o país andar num corropio de felicidade.

 

depois o moço irreverente passou-se um bocadinho da moina.

entendi.

condicionantes de saúde, a irreverência marcante, a vontade de demonstrar genialidade.

soltou o comentário do peido no meio de um espectáculo de solidariedade em que se queria fadinhos e vozes elevadas a deus e portugal levou a peito. eu não fiquei especialmente ofendida (fiquei mais com a ideia do português que adora caridade de sofá) mas achei que aquela imagem de irreverência começava a deixar de ser engraçada e genial e transformava-se numa espécie de... tontice.

o moço é tonto, concluí.

e esqueci o assunto.

 

ontem assisti ao festival da canção enquanto dobrava meias (foi nada. não há aqui tanta meia em casa que permita um serão inteiro delas). 

e em boa verdade... nada de novo. perdi-me até em quatro ou cinco lá pelo meio. 

gente estranha, mais do mesmo, nada de muito interessante. uma fulana relembrou músicas passadas, outra gritou em viva voz, outros, enfim, adiante.

mas falo dos que me lembro:

 

o cid

o cid apareceu como o cid a lembrar fadinhos e almas de povos, perdido num tempo em que o el rei dom sebastião era um hit.

não me interpretem mal. gosto do homem. sério. canto de cor uma data de canções do senhor e, apesar de não me arriscar a ficar na frente dele num concerto sem capa insuflável ou guarda-chuva, acho que há uma certa piada no que ele cantou em tempos.

não no que ele insiste em inventar de novo.

e aqueles lencinhos ao ombro dos guitarristas eram qualquer coisa que a minha avó aplaudiria com gosto. 

 

a anabela

a anabela apareceu vestida de anos noventa de braço no ar, a lembrar que evoluímos mas os gestos atrasados permanecem.

gritou que se desunhou e fiquei à espera de um bailinho ali no meio, com cinco lavadeiras a gritar o malhão.

até gosto do tordo mas aquilo não era coisa que se pudesse aplaudir. 

 

o palma

o palma encontrou o filho há muito, muito, muito tempo perdido.

ponto de ordem nisto: adoro o palma. acho-o absolutamente genial. há músicas dele que são hinos na minha vida. e a de ontem não desiludiu. simples, sem merdinhas, sem tentativas de ser o que não era.

reconhecia-se nela palma do princípio ao fim e creio que seja isso o que o distingue no que compõe: é ele.

o mais interessante foi que quem a cantava poderia ser ele.

a personificação de um e outro. confesso que gostei.

 

o resende

houve uma moça que apareceu vestida de carnaval.

e aqui já se esperava.

depois da onda de aceitação da irreverência e da personagem do ano passado, esperava-se que este ano acontecesse o mesmo.

pois meus senhores, gostei da música.

a moça tinha uma voz magnifica, a canção era linda e não podia ficar alheia ao facto de o resende estar por trás.

sou apreciadora de júlio resende desde há muito e isso influencia o meu gosto por esta moça.

ainda assim, o vestido de carnaval atrasado e a imagem de que andou a brincar com a maquilhagem da mãe era, na minha opinião, dispensável.

não que o festival não seja uma paroleira. mas porque a música merecia melhor.

 

o peu

claro que não se podia dispensar um novo frei hermano a cantar ao senhor dos passos.

ou à senhora da saúde.

por isso, é evidente, ele apareceu em peu qualquer coisa.

sim, um dos moços chamava-se peu e cantava como quem reza um salmo ao domingo, numa igreja meia vazia.

enfim, pensei, quando o ouvi. se não for o cid, é este que tem a pontuação máxima do público: depois de termos um fulano na eurovisão que fala em peidos no horário nobre, a única forma de nos redimirmos é mandar um que diga cinco avé marias antes de ir à cagadeira

e não é que acertei?

 

o j.p. simões

 

fabuloso.

e nem venham com merdas que se trata de elitismo e nhé, nhé, nhé.

a música é fantástica, o homem é genial e por mim, se ele quisesse e eu pudesse, comprava-o como meu melhor amigo para os próximos cinco anos.

é claro que a coisa psicadélica das luzes podia provocar uns ataques de epilepsia a muita boa gente.

e ia contra os ensinamentos do santo salvador de que a música não é fogo de artifício.

no entanto, podíamos perfeitamente perdoar dois ou três ataques mal feitos pelo bom que provoca em quem gosta. 

 

o janeiro

estava fartinha daquilo quando apareceu, em pleno fevereiro a lembrar já março, o janeiro.

um fulano vestido de fato macaco, com uma cena na cabeça que a ana malhoa usava quando começou a cantar com o pai. 

sei disso porque havia lá em casa uma cassete dela e quando eu era miúda punha uma meia amarrada na cabeça para a imitar. todos nós temos momentos tristes na vida.

o janeiro apareceu assim. mais um tontinho, pensei. 

só que não.

a interpretação foi magnifica, a música era lindíssima. o moço transferiu sentimento e não, não era uma cópia do salvador, tanto mais que, parece, até são amigos e cantam juntos. 

gostei. e pensei, pronto é isto, o júri vai escolher este. que escolheu. 

 

e depois toda esta minha primeira admiração foi por água abaixo.

que o festival é uma pirosada já sabemos. mas pegar nessa pirosada e atirá-la à cara de pessoas que, como eu, estavam a arrumar meias a um domingo à noite, é um bocado ofensivo.

quer dizer, no momento do anúncio dos doze pontos, o moçoilo saca de uma banana. que começa a comer. 

dúvidas:

1. onde raio tinha o rapaz a banana? no fato macaco?

2. e tinha-a porquê?

3. não alimentam o pessoal convenientemente nestes certames?

4. ou era a mamã que estava sentada à espera dele, prontinha que não lhe faltassem vitaminas? 

 

vamos lá ver: que a irreverência do sobral fosse engraçada podemos aceitar. era-o mesmo que algumas pessoas não concordem.

que ele parecia ali atirado de para-quedas sem saber muito bem como agir, é certo. e que isso parecia e podia ser genuíno é certo também. lembrem-se que tinha como antecessores a enorme sabrina e a grande lucy.

mas agora caro janeiro, tu já não estás aí sem saber ao que vais.

tu já não te estás a cagar para a coisa.

não foste só por ir.

e desprezares a coisa ao ponto de dizer "ah que se lixe, doze pontos, merecem uma banana" é um bocadito tontinho.

ridículo, diria, porque não serve de nada.

se o objectivo é demonstrar a genialidade através da irreverência tinha-lo conseguido com a música.

tudo o resto é só pequenito.

quase tão pequenito como o fato repuxado do peu a razer o pai nosso.

 

santa maria das causas perdidas nos ajude.

(a nós e ao malato que parecia ter um orgasmo quando viu el-rei dom salvador).

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a ironia

por M.J., em 16.02.18

há uns dias atrás li uma daquelas notícias da caca que circulam nas redes sociais:

um homem norte americano ganhou a lotaria. quando lhe perguntaram o destino de todo aquele dinheiro respondeu que iria consultar um médico, uma vez que andava a sentir-se mal e até então não tinha possibilidade económicas para o efeito.

muito nobre.

muito bonito.

quase caridoso. 

duas semanas depois, já de consulta feita, morreu com um cancro terminal. ou fulminante. ou as duas coisas, sei lá. 

rico e morto.

a ironia da vida:

enquanto fora pobre, esteve vivo. 

quando contei ao rapaz ele encolheu os ombros e soltou a sua opinião delirante, mal desviando os olhos do monitor:

bem, a solução é óbvia. bastava não ter ido ao médico.

 

não ri.

é que se há coisa que guia a minha vida, numa espécie de toma lá que já almoçaste, são estas ironias.

se não fosse de tão mau gosto, poderia até resumir-se estes meus 30 anos numa cantiga mal feita da alanis morissette, ou de uma curiosidade triste de um pasquim noticioso. 

é de tudo: passo meia vida a estudar e quando finalmente conquisto o que quero, com uma média que sim senhor, descubro que afinal não gosto. mato-me a trabalhar para ganhar o lugar que espero, e quando finalmente lá chego despeço-me porque já não me apetece.

e isto é frequente em tantas outras coisas.

só estou bem onde não estou e, como se não bastasse, quando estou efectivamente bem, a vida vem e dá-me uns abanões a mostrar que enfim, podia ser mas não era.

de tal forma que, na maior parte das vezes, dá até vontade de rir. 

 

há uns meses atrás decidi engravidar. 

(não precisam de abrir tanto a boca. é um bocado evidente para quem ler este pasquim com algum tipo de frequência). 

quer dizer, não foi assim de um momento para o outro.

há coisas e coisas e decisões e decisões.

 

e esta foi uma que surgiu no decorrer da vida.

decisão tomada, pensei, agora que ultrapassei a barreira e me pus do lado de cá e se calhar até vou ser daquelas mães chatas que não falam de outra coisa que não isto, vamos lá despachar o assunto e sofrer o que houver a sofrer com as hormonas, as dores de costas e os enjoos. 

assim.

uma amiga minha decidiu engravidar.

no mês seguinte a coisa deu-se.

também assim.

como quem vai ao pão: queres, deslocas-te à padaria, trazes o pão e se a coisa correr bem, ainda comes um quentinho pelo caminho. com ou sem manteiga.

se com ela foi dessa forma, comigo não haveria de ser diferente. 

achei eu.

não foi.

no fim de dois meses fui ao médico. que se riu na minha cara. estaria eu a gozar? questionou-se o homem, em pensamentos, que isto uma pessoa vê pela cara. dois meses não era nada, que fosse para casa e tentasse. e me deixasse dessas ansiedades parvas.

pois bem. o médico não poderia saber da minha persistência, da minha vontade, deste meu feitio que quando toma decisões toma para o agora e não no deixa andar a ver como corre. a vida não é para se deixar andar. 

só que não.

mudei de médico seis meses depois. fui analisada, perscrutada, espetada e olhada (não direi admirada). fizeram-se análises, estudos e pagou-se para o efeito. pois bem, um ligeirinho problema, perfeitamente ultrapassável, disse a médica, se fizesse um ligeirinho tratamento, continuou, com um ligeiro medicamento, afirmou, que se espeta na barriga.

oh bem, que seja, pensei. não me há-de matar.

não mata, é certo. mas mói.

espetar coisas na barriga não me incomoda. fui especialista em tempos em tatuagens a sangue frio. e é só um ligeiro espeto, nem sinto.

mas os efeitos secundários da coisa são... fenomenais. a cabeça parece que vai explodir, a barriga fica inchada e dolorida, as insónias são frequentes e há hematomas no abdómen, não da picada em si, mas do que se lá insere. e nem falo das alterações de humor, que isso provoca, só por si, uma alteração ao humor alterado.

 

mas falo da ironia.

falo da bofetada da coisa: durante anos achincalhei a situação do exagero que a maternidade provoca em algumas mulheres.

no meu caso, para aceder a esse possível exagero, tenho de passar pela maioria dos sintomas que ele provoca, antes mesmo de acontecer.

não é bem?

eu por mim estou encantada. 

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bilhetinhos

por M.J., em 14.02.18

há sempre uma gorda, no dia dos namorados, que fica sentada na carteira à espera de receber bilhetinhos.

em boa verdade, não sei como funciona actualmente.

os miudos nas escolas ainda se vestem de carteiros, cupido ou outra coisa qualquer e percorrem as salas distribuindo cartinhas, postais, flores e chocolates? ou recebe-se tudo via instagram, facebook, whatsapp, youtubes e essas coisas novas?

 

no meu tempo, há tanto tempo que parece ontem, alguém percorria as salas transportando tesouros. 

eu era a gorda no canto, de óculos e ar atento, na espera ansiosa de receber um bilhete que não chegaria jamais. e nessa ausência,  disfarçada com mal disfarçado desdém havia uma tristeza latente de culpa.

de vez em quando alguém se lembrava e enviava um bilhete,

és a minha melhor amiga,

clamavam, na piedade de quem não receberia um penduricalho qualquer, para esfregar nas trombas alheias no intervalo.

 

havia sempre uma gorda e eu era a gorda.

eu esperava o bilhetinho, na letra mal escrita.

poderia até ter erros, nessa coisa não era esquisita.

podia mesmo vir num pedaço de folha rasgada, ao canto, ou em papel quadriculado, meio amarrotado e tudo.

desde que viesse.

poderia mesmo ser anónimo, na capacidade de esperança durante largos meses à cata de onde viera.

podia ser, não era.

podia ser. ou podia ser pior: não tive admiradores secretos falsos, partidas cruéis de dia dos namorados, brincadeiras que poderiam fazer rir toda a gente, incluindo eu no desdém mal feito e na mágoa mal escondida. 

nada. 

 

já em adulta, longe dos bancos da escola e da faculdade, depois de escrever sobre o ridículo da data, de rir sobre o assassínio das rosas vermelhas, das overdoses de chocolate e das filas às portas dos restaurantes, como colegiais de mãos dadas à espera de uns bifes mal feitos, enviaram-me flores para o escritório onde trabalhava.

não sei quantas eram.

lembro que eram rosas.

vermelhas.

com brilhantes.

e tinham um bilhetinho acoplado, ainda guardado na caixa das recordações, escondida (esquecida?) na garagem, como guardando em si o passado para sempre.

sei que fiquei meia histérica, mesmo que a medicação na altura me impedisse de grandes alegrias.

nem sequer era dia dos namorados, mas algo em mim se regozijou por todos os dias dos namorados mal gozados, ali para sempre remediados, num escritório com vista para a rua, pessoas e clientes e eu com um ramo de rosas na mão. 

para sempre,

pensei, ali completa, até que meses mais tarde, já as rosas haviam secado e só restava um bilhete, o autor delas me mandou um pontapé no rabo, tão bem dado que me fez tropeçar na doença que era minha e me fazia só ver escuridão:

tens direito a rosas, lá isso tens, mas esquece o resto.

 

tu deste-me rosas. já.

e girassóis.

deste-me confiança. dizes que me amas mesmo quando tenho os cabelos no ar (e são tão brancos, meu amor, cada vez mais), remela nos olhos e estou vermelhusca de transpiração.

tu deste-me rosas. já.

e carinho. apertas a minha mão e dotas a nós de toda a esperança que existe no mundo.

e se correr mal? questiono eu, nas mil dúvidas que me assolam, uma espécie de comichão que se cola ao cérebro, uma ideia fixa, e se, e se, e se, e se, em constantes ses que matam e consomem até eu ser só se.

tu deste-me rosas. já.

e paciência. pegas nas minhas birras, e caramba se sou birrenta. nos últimos tempos esta coisa de termos de brincar com as hormonas transforma-me numa criança birrenta, em algo que não fui,

olha que apanhas, estás ouvir? birras comigo não,

a voz da mamã, paciente em tanta coisa menos nos guinchos e nas birras,

estás de burro amarrado? olha que tens bom trabalho a desamarrá-lo,

e tu pegas nas minhas birras e com infinita paciência dás-me a atenção, mesmo quando mereço um par de estalos, mesmo quando sou pior que um miúda e podia desatar aos guinchos no meio do nada, e tu permaneces e ficas e manténs a serenidade e pedes desculpa mesmo quando a desculpa é desnecessária na criancice que é minha.

tu deste-me rosas já. e secaram. e perdi o cartão, sei lá dele, não é preciso:

tu estás a dizer o que cartão algum poderia dizer.

tu estás.

tu ficas.

tu permaneces.

 

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há sempre uma gorda no dia dos namorados, que fica sentada ao canto, na espera do bilhetinho.

se as coisas correrem bem não haverá  bilhetinho algum que sirva, algum dia, para demonstrar o amor.

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oh vai ver ali:

estou viva.

nem sempre acho piada a esse facto.

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banalidades

por M.J., em 06.02.18

esfrego as mãos geladas e procuro conforto numa chávena de chá a ferver.

o frio percorre a varanda, inunda as árvores e torna hirtas as roupas, estendidas no varal, na procura de um pouco de calor.

arrumo botas e procuro meias quentes. tomo um café ao sol, depois de almoço e percebo que não disse hoje uma única palavra.

as palavras que me rodeiam são gritos no meu cérebro, silenciosas na minha voz, como que se fosse desnecessário o seu uso.

recolho roupa e acendo uma vela.

as mãos frias permanecem geladas e planeio boicotes à vida, que não digo mas enumero, muito rapidamente, na voz da minha cabeça.

 

as plantas permanecem alinhadas.

há um cheiro a jasmim nos corredores e livros esquecidos pelos cantos. 

estou em casa e sinto saudades de casa.

penso na minha cama, o saco de água quente que a mamã me levava, o seu passo pelas escadas, as suas mãos nas minhas costas, a roupa aconchegada, os lábios na minha face.

recordo os pés em botas novas a calcar o gelo das manhãs, as ervas quase mortas do frio que as tornava rígidas e brilhantes.

recordo a lareira acesa, a lenha a crepitar, o cheiro a sopa e a marmelada, os vidros embaciados e vozes de pessoas a falar coisas que eu julgava inúteis, perante o meu revirar dos olhos atrás dos livros.

 

um dia vou ficar calada o dia inteiro, pensava. vou afastar-me do mundo e arranjar maneira de viver sem a necessidade da convivência com o outro, pensava.

pensava.

sem saber que um dia teria a possibilidade de fazer do dia o dia à minha maneira. 

o único problema é que nunca quero o que quero e o dia que quis ontem é um outro que já não quero, quando o tenho hoje.

está frio.

tenho frio. 

não há aquecedor que resolva.

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publicado às 13:50

que me define, uma só, na imensidão das palavras que existem, escolheria assim, sem pensar grande coisa:

incerteza.

 

saberão qual a vossa?

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música

por M.J., em 02.02.18

consigo ver claramente a minha obsessão com certas músicas.

é como um encontro: ouço-as e sinto de tal forma, colam-se a quem sou com tanta intensidade que as persigo, me aproprio totalmente das palavras, da melodia, e faço delas um pedaço de mim, como um braço e uma perna, de tal modo que são tão eu como eu e é impossível olhar para trás e não as reconhecer em mim.

 

há umas quantas:

quando tinha 16 anos passei um verão inteiro a ouvi mad world, de gary jules, em loop, de tal forma que a mamã proibiu a música sempre que estivesse em casa, cansada de ouvir aquilo de manhã à noite, a soar pelas paredes num choro triste. 

 

aos 19 passei meses ininterruptos a ouvir avec les temps, de léo ferré.

a letra era os meus pensamentos e podia chorar sem lágrimas sempre que a ouvia.

e ouvia sempre.

foram dias seguidos, meses, como um encontro, um hábito, um vício a manter à deriva a pouca sanidade mental que tinha.

 

aos 20 persegui verdes anos, de carlos paredes.

a intensidade pela música era tal que a ouvia sempre antes de adormecer, como uma canção de embalar.

fiz poemas que recitava mentalmente ao som dela, planeei o futuro como se a guitarra me guiasse os passos. e casei, anos mais tarde, ao som dela.

 

aos 24 encharquei-me com ornatos violeta.

foi na fase em que a doença se alastrou e os indícios do que iria acontecer eram mais do que evidentes.

a música deles, a voz do manuel cruz, a violência quase das letras, o cru dos sentimentos fizeram-me apropriar das músicas como minhas.

não ajudava.

empurravam-me numa dor tétrica e mórbida que praticamente acarinhava.

e ainda hoje, não consigo ouvir até ao fim "chaga" sem sentir uma revolta nas entranhas, um medo escuro e um frio atroz, me me queima como gelo.

 

também nesse ano, quando já não era eu mas outra qualquer consumida pela doença, sem sentir absolutamente nada, ouvia de forma constante, como acarinhar dos cortes na pele, a dor da alma, no fim do céu dos quinta do bill.

não consigo hoje ouvir mais do que vinte segundos sem sentir que o mundo vai desabar e eu vou desaparecer em dor.

sem evocar imagens que não desaparecem:

o caminhar sem rumo. o vento na pele ferida. o som dos comboios no espaço entre o fim e o recomeçar da música. a sensação de abandono. a certeza de morte. as ondas em turbilhão numa praia deserta à noite. 

 

aos 25  depois de ultrapassar o fim, apaixonei-me e entrei numa nova obsessão musical: agnes obel com riverside.

ouvia-a dias seguidos, numa espécie de hino sem lógica, uma esperança a que me agarrar no recomeço, enquanto alguém juntava os cacos que eu era e me prometia, como cumpriu e cumpre, que tudo ficaria bem.

e ao ouvi-la lembro-me de dias pequenos e beijos com chá.

as primeiras gargalhadas de um ano inteiro, as glícinias a perder as folhas e mãos dadas ao anoitecer.

 

há outras. umas quantas que são mais minhas do que de quem realmente são.

e agora, numa outra fase, num outro momento, percebi a minha obsessão por esta, que ressoa pelas paredes e me faz os dias: 

 

 

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cansaço

por M.J., em 01.02.18

o grande problema que surge com o auto-conhecimento, trinta anos depois, é a percepção de que não tenho absolutas certezas de nada.

há coisas evidentes que toda a gente julga saber:

quem ama, os limites por que se norteia, os objectivos que fazem parte da vida.

quem detesta. o que quer e o que não quer.

são coisas aparentemente simples que, supostamente, ganham uma nova clareza com o passar do tempo. 

e assim é para aqueles que se conhecem bem.

ou, na minha opinião, para aqueles que, não raciocinando mais do que meio minuto por ano, julgam que se conhecem e vivem numa cegueira triste. 

assim seja.

 

com o tempo deixei de saber quem sou, o que quero, para onde vou.

deixei de assumir certos e errados com a mesma clareza que sei cozinhar um ovo ou fazer uma cama.

há uma dualidade e imensas zonas cinzentas na mesma proporção que vou percebendo quem sou. 

e é triste.

 

porque aumenta o cansaço constante de não perceber o que devo fazer.

olho para os outros na procura: daqui a dez anos quero estar assim ou assim? quero olhar para trás e ver que fiz isto ou aquilo?

quero ver-me com duas crianças absolutamente irritantes, que me perseguem os calcanhares ou como a pessoa que viajou por cinco continentes na procura de quem é, quando podia encontrar-se se fosse normal?

quero ser a fulana que, não tendo filhos, fala de cães e gatos como pessoas? ou quero ser a mãe que, com dois clones de si mesma, é irritante ao ponto de, em todas as conversas, os trazer para o assunto, como se o resto do mundo estivesse realmente interessado em saber?

 

juro que não sei.

deixo-me ir na corrente.

tomo decisões que não são minhas, ou são, mas digo que não no medo de as assumir.

crio objectivos que acho não serem meus, ainda que sejam, porque nasceram de quem sou.

 

viver é uma canseira. 

e a vida em pessoas como eu, insistentemente na dúvida, insistentemente insatisfeitas, na procura constante do que são, mesmo que já sejam aquilo, é coisa para esgotar, para criar espaços mortos e apatias monumentais.

para criar horas perdidas a ver o céu pensando em quem fui e já não sou.

ou quem sou e nunca fui. 

 

estou cansada. 

e a medicação não está a ajudar nadinha. 

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acerca da capacidade de sentir

por M.J., em 31.01.18

 

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publicado às 14:10

aposta

por M.J., em 31.01.18

ontem enquanto esperava que o rapaz saísse do dentista, entrei na primark.

para além da imensidão de trapos que aquilo tem encontrei também, ao fundo, perto do sítio onde se compram tralhas para a casa, uma criança e os respectivos progenitores.

a criança berrava, o pai encolhia os ombros e a mãe perguntava insistentemente, numa obsessão quase doentia, onde estava o brinquedo que ele acabara de perder. 

o miúdo, que não devia ter mais de dois ou três anos, não sabia responder e, perante o questionamento da mãe gritava. 

cinco minutos depois daquilo, a mãe ajoelhada no chão a segurar o puto, o puto agarrado à mãe num gritaria desmesurada,

mas onde é que o puseste?

e o pai,

não te compro mais nenhum, podes crer,

e o puto a berrar,

e eu pensar

que catano, com tanta porcaria nesta loja é só darem cinquenta cêntimos para uma treta qualquer e acabar com o circo,

e a mãe,

onde é que o puseste? não está aí, onde é que está?

e o pai,

é que não compro mais nenhum mesmo,

e eu a pensar, 

se calhar escondiam droga no brinquedo, tal a importância e o escabeche feito,

e o puto cada vez a berrar mais,

a mãe termina levantando-se, pegando no braço do puto e exclamando, sem pejo nem medo

(e eu seja cão se não é verdade)

rais parta o miúdo!

 

vamos fazer uma aposta:

esta seria das que dizia mal do programa da sic que educava crianças em horário nobre, como um treinador a um canídeo, ou das que acharia que programas destes são necessários?

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