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banalidades

por M.J., em 20.09.18

a questão é que as noites mal dormidas, provocadas por insónias inexplicáveis, câimbras nas pernas e dores de costas, começam a refletir-se nas coisitas do dia a dia.

para mim, dormir tem a mesma importância que beber muita água. na falta de um ou outro os efeitos provocados são físicos e emocionais.

fico irritadiça, inconstante, incapaz de raciocinar direito, com dores de cabeça e, em consequência, pensamentos circulares, viciosos, que começam e terminam sempre na mesma tecla, como uma espécie de comichão cerebral que não desaparece por mais que a tente contrariar.

a vontade é pegar numa caneta afiada, enfiá-la narina acima e coçar até a comichão desaparecer e eu conseguir ser novamente eu.

mesmo que a pessoa de trevas e pensamentos negros também seja eu.

 

a impossibilidade, incapacidade, seja lá o que for, de dormir transforma-me noutra qualquer pessoa.

deixa de haver copos meios cheios.

melhor: deixa de haver copos de todo. há só água esparramada no chão. isto nos dias bons. nos dias maus estamos em seca extrema e a morte é a única solução.

 

não sou, nunca fui - tenho a certezinha absoluta que nunca serei - uma pessoa dita "normal", ainda que a normalidade seja subjetiva.

o que sou, onde estou e afins, foi fruto de uma série de estranhas coincidências, laivos de sorte e uma resiliência sobre-humana moldada à força de não haver mais alternativas.

cheguei aqui e o que foi construído neste pedaço de carne que tem a sorte de poder caminhar, nem sempre é algo passível sequer, de ser olhado.

tenho mesmo a sensação de que se alguém conseguisse dissecar o meu cérebro e percebesse todos os ciclos viciosos de pensamentos, os planos, as ideias absurdas dignas de filmes de terror onde eu acabo sempre mal, arrepiar-se-ia a pontos de fugir muito rápido.

como uma espécie de peste bubônica, capaz de contagiar tudo ao redor, onde a fuga e muitos banhos de vinagre é o único escape, ainda que ténue. 

 

as noites mal dormidas começam a deixar-me um bocadito mais louca e de alma negra do que o habitual.

não é uma questão de sobrevivência. o meu corpo molda-se às necessidades e há a possibilidade de passar meses a dormir duas horas noite (já aconteceu, não morri).

mas a outra parte, aquela que me põe capaz de ser convivente com o outro, que me permite viver cada dia numa espécie de rotina calma, a apreciar os pedacitos dos dias, a saborear café quente, a vislumbrar beleza na dança das árvores, a planear as mil coisitas que nos fazem para o futuro, morre um pouco de cada vez.

e quem fica não é agradável. 

quem fica também sou eu.

mas é a parte que me recuso a querer ser. 

 

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mede-se pelo fato de desatar a chorar ao ver isto:

 

internem-me.

 

por favor.

alguém que me interne. 

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juro que não percebo

por M.J., em 14.09.18

por que raio de motivo nos grupos de facebook, instagram, blogs e afins, as mulheres que são mães, se tratam a todas por mamãs?

(às vezes é mesmo por mamas, mas depreendo que não estejam a referir-se aos seios, no prover de leite).

porquê?

fulana tal deixa de ser a ambrósia para ser só mamã?

 

eu até me habituei à compra dos babygrows, da escolha dos biberãos, da procura do carro mais adequado e ovo com airbag e dos preços das creches... mas pela vossa saúdinha mamária:

não me tratem por mamã, sim?

 

o meu nome de batismo não vai para segundo plano porque vou pôr no mundo três quilos e quinhentos de pessoa.

(sim, temos uma aposta do peso do crianço e este é o meu palpite). 

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banalidades

por M.J., em 13.09.18

uma vez, há muitos anos, alguém próximo disse-me - sem qualquer hesitação na voz, um ar de sabedoria - que as mulheres serviam para pouco mais do que apanhar porrada.

foi atirado com desprezo, como se fosse mesmo a sério e como se eu, enquanto pessoa ali a ouvir, não fosse mulher também mas uma coisa com pernas e braços.

só isso.

não é que as palavras me tenham magoado mais do que outras. aprendemos com a vida a ser resilientes - se não aprendermos somos sugados pelas circunstâncias - e percebi, mais cedo do que era suposto, que temos de filtrar certas coisas se queremos sobreviver.

portanto, não só não acreditei naquilo como, lembro-me perfeitamente bem, senti um certo sorriso interno a nascer por saber que provaria, mais dia menos dia, que as palavras eram tão falsas como flores artificiais em cima de sepulturas em cemitério.

 

não me interpretem mal.

as palavras não foram tidas em consideração. mas a maneira como foram ditas - e por quem foram ditas - aterraram em mim como um pedaço de papel queimado, a tentar desfazer-me em cinzas.

 

às vezes, em conversas com o rapaz, a luz do quarto apagada e o sono que teima em não vir, por entre os planos da viagem que fazemos juntos, as decisões da partilha da vida, soltamos pequenas inconfidências, episódios da vida que foi nossa e já não é.

não há nada em mim que ele não conheça. sabe da história e estórias que me constituem.

conhece os dias de arco íris e aqueles muito negros que, por uma questão de sobrevivência, não apago.

são menos do que os dele porque, felizmente, foi desde demasiado cedo abençoado com uma inteligência e racionalidade acima do comum. uma racionalidade que transportou para cada pedaço da vida e o faz ser grande, gigante, em tantos aspetos.

é o meu pequeno génio e tenho mais orgulho em cada pedaço dele do que nos meus maiores feitos.

 

soltamos inconfidências, coisas que já dissemos outrora, mas que nos afloram à mente. 

e quando ele conta qualquer coisa menos doce, quando as memórias são mais azedas de episódios - que todos temos - de outrora, é como se o meu peito se partisse e eu ficasse repleta em lágrimas. há uma dor muito aguda, mergulhada num pântano de angústia que o quer resgatar de coisas idas, trazê-lo ao meu colo, embalá-lo com muita força, acariciar-lhe o cabelo e prometer-lhe o mundo.

não que ele precise.

mas o meu peito anseia por descontinuar-lhe aquela dor, pequenita, que ficou de um ou outro acontecimento - como fica em todos nós, mais ou menos - e soprar-lhe coisas doces aos ouvidos, entregar-lhe mimos de amor, correr atrás de tudo o que não foi e devia ter sido, consertando todos os aspetos que fizeram, transformaram, construiram aquela memória.

 

creio ser isto uma outra dimensão do amor.

aquela que tortura um bocadinho, como pregos afiados espetados na carne, por não sermos capazes de apagar aquele acontecimento que ainda permanece no outro. 

não sei se o sente, desta forma, por mim.

espero que não.

as minhas trevas, ainda que resolvidas, são mais profundas, mais escuras, mais pesadas, mais para sempre. 

mas sei que, desde o primeiro dia em que decidimos que a vida seria percorrida pelos dois, lado a lado, que fez tudo, a cada segundo, a cada hora, para me mostrar - minto, para me provar - que por mais negro que tenha sido o passado, eu, enquanto eu, sou a pessoa mais importante que povoa a sua vida.

e que todos os episódios que me moldaram a mente em dor, incluindo aqueles em que fui rebaixada a uma coisa com pernas e braços, destinada a apanhar para o resto da vida, são laivos de algo que foi e nunca mais será.

 

não sei se amarei o meu filho como o amo a ele.

não é comparável, dizem-me. não é dimensionável, juram-me, e eu acredito.

mas se a vontade de proteger o filho do que ainda não aconteceu, for igual à de proteger o pai do que já passou, não sei se terei peito que aguente e se não explodirei, uma noite, na impotência de saber que o mundo é maior do que a minha capacidade de segurança.

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oh vai ver ali:

desejos

por M.J., em 12.09.18

esta noite dormi 3 horas. 

tive insónias e de manhã, cedíssimo, tive consulta na maternidade.

uma pessoa chega lá - com um frasquinho de urina nos pertences, um livro e uma garrafa de água - às oito e meia da manhã e espera, sentadinha até às 10, para ser atendida. até dormia uma sesta se não estivesse tanto calor (isso e para não perder a oportunidade de ver desfilar grávidas e perceber se aquele tipo de roupa poderia ser adquirida, não me fazendo parecer um bidão com pernas).

 

quando cheguei a casa, já por volta da hora do almoço, esfomeada, a suar por todos os poros, cansada de uma noite mal dormida, enfiei-me no banho e, depois de comer qualquer coisa, estendi-me na cama para descansar as pernas.

 

resultado: adormeci e acordei agora. (quem precisa de trabalhar quando está a formar uma pessoa na própria barriga, não é?)

 

O problema: acordei a meio de um sonho em que comia bolo de morango.

mas um sonho tão absurdamente real que tenho, ainda agora, o sabor do bolo na boca.

daqueles tipo torta, que comemos nos piqueniques, com um sabor enjoativo em demasia, o creme branco muito espesso e uma massa nada de mais. 

 

já comi uma bolacha e não consigo livrar-me daquilo.

na verdade, dava vinte euros por uma fatia de bolo de morango rasca.

dava uma roupa do puto - a minha preferida - por uma fatia de bolo rasca.

oferecia os serviços intelectuais do rapaz - por duas horas - por uma fatia de bolo de morango rasca.

sem morangos verdadeiros.

só aquele sabor adocicado, enjoativo e barato. 

 

alguma alminha caridosa que queira ajudar uma grávida com desejos?

não?

se o puto me nasce com cara de bolo culpo-vos a todos pela falta de solidariedade.

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experimentem trabalhar sentados

por M.J., em 11.09.18

12 a 14 horas por dia, numa secretária, e terem de optar entre:

  • ter uma postura direita, as costas erguidas e corretas mas, para tal, pressionarem a barriga contra a secretária (e não, ela não encolhe, não é banha);
  • terem a barriga à larga e, em contrapartida, estarem meios arqueados, dobrados, etecetera e afins.

 

portanto, inventam-se banheiras de hidromassagem para putos, cremes com álcool e sem álcool para peles menos e mais assadas, berços que se transformam em sofás, carros de passeio topo de gama que se modificam para serem alcofas, corta unhas que não cortam peles e ninguém se lembra de inventar uma merda qualquer que deixe as tristes das grávidas trabalhar direito?

 

não posso escolher entre a barriga e as costas... preciso das duas, senhores.

alguém que resolva isto que eu compro. 

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e não são os enjoos,

não são as pernas cansadas,

não é a falta de posição para dormir,

não é o medo constante se o puto mexe ou não,

não são as consultas ora no centro de saúde (meu deus do céu, o médico com que lido, só visto), ora na maternidade, ora na obstetra (um abuso de gente, mas antes a mais que a menos),

não é o marketing agressivo a dizer-me que se não recolher o sangue do cordão umbilical sou uma mãe de merda,

não é a comichão nos mamilos (o quê? não sentiram isso?),

não é o besuntar a barriga com cremes para que não ganhe estrias,

não são as hormonas que me fazem chorar.

 

não meus senhores, tudo isso não é o pior.

 

o que me chateia a pontos muito chatos, o que me faz sentir mesmo mal, é esta incapacidade de perceber as coisas à primeira, de trocar palavras, de dizer observações sem nexo, de não entender o que me perguntam, de querer dizer pescoço e anunciar lasanha, de, enfim, sentir uma coisa que nunca senti em todo a minha vida:

que sou burra, incapaz de aprender, de compreender, que o meu estado de alerta passou a pura distração, que preciso que me repitam as coisas muitas vezes e que, tem dias, até desisto de perceber só para não ter de fazer um esforço descomunal a entender o que um miúdo de cinco anos não tem dúvidas.

 

odeio, odeio, odeio. 

preferia enjoar mais dois meses, ganhar duas estrias no joelho e chorar dez horas seguidas do que esta sensação que, sim é verdade, devo tão pouco à inteligência que o meu cérebro devia estar numa instituição de aprendizagem especial.

oh valha-me deus. 

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aquelas pessoas que se lembram

por M.J., em 10.09.18

assim num rompante, de escrever nas redes sociais que não publicaram nada nos últimos tempos porque estavam ocupadas a viver e a ser felizes...

nos dias em que publicam não vivem e estão tristes?

 

fiquei com pena!

tendo em conta a quantidade de coisas publicadas nos outros dias, passam 90 por cento do ano em desespero e angústia. 

alguém que as recorde que isto das redes sociais é opcional. 

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não vos contei

há uns tempos recebi um e-mail, todo catita, de uma entidade que queria fazer uma parceria aqui com o tasco (agora que penso nisso, tenho de lhe mudar o apelido. taberna? pastelaria? casa de chá?)

a proposta era simples: eu tinha menos trabalho a escrever mas continuava a ter conteúdo aqui para o sítio, uma vez que eles escreviam posts (poupavam-me a esta enorme trabalheira e consumição de alimentar o meu próprio blog) com leves referências ao produto/serviço que queriam vender.

achei extraordinário.

 

então mas faz sentido que um blog que relata a vida aos pedaços de alguém, precise que essa mesma vida seja relatada por outros?

assim, movida do meu espírito curioso (e do principio do contraditório da outra parte) mandei um e-mail perguntando duas coisas:

  • se achavam o conteúdo do tasco tão medíocre que precisava que alguém escrevesse por mim para melhorar isso; e
  • se sim (visto que não haveria outra justificação) por que motivo mais obscuro queriam estar ligados a um blog que precisava de outros para o alimentar.

durante semanas esperei ansiosamente a resposta.

não veio.

 

pergunto a vós:

que leva a alguém que tem um blog por puro passatempo aceitar que outros lhes escrevam os posts?

é para elevar o ego dizendo que, caramba, até já tem parcerias?

se o o blog é a vossa voz, por que raio querem que alguém fale por vocês?

 

eu seja cão se entendo. 

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da bondade da natureza da gravidez

por M.J., em 05.09.18

entrei num grupo de grávidas do facebook durante dez minutos.

achei que agora, nesta fase, em que a minha barriga já me impede ver certas partes do corpo e deliro comprar roupas para criança, estava preparada para os cutchi cutchi da maternidade.

pois...

estava nada.

 

passei dez minutos a navegar pelas publicações e respetivos comentários e achei que, a bem da minha sanidade mental, tinha de saltar fora daquilo. 

era isso ou ser banida após dez comentários.

saltei.

mas antes disso a minha memória brindou-me com duas coisas que ali estavam e ficaram gravadas:

  1. uma publicação absolutamente fundamentalista sobre amamentação onde as parideiras que não punham o mamilo na boca dos respetivos filhos eram mães inconsequentes e irresponsáveis (nada de novo, portanto);
  2. outra publicação muito fofis em que uma senhora dizia que a natureza era uma coisa magnífica porque aos 8 meses de gravidez já sentia insónias, o que era a preparação do corpo dela para os meses vindouros sem dormir.

isso mesmo!

a natureza é magnífica porque me tortura dois meses antes da verdadeira tortura!

 

méquié?

quer dizer... como se já não bastassem as contingências necessárias do ter que acordar sei lá quantas vezes durante a noite para alimentar a criança quando ela nascer, a bondade da natureza vê-se quando me obriga a passar os dois meses anteriores a esses... acordada também?

é do género: que sa lixe! detestas agulhas e vais ter de tirar sangue? prepara-te já e começa a espetar-te pelo corpo todo! 

mas isto tem algum jeito?

 

pessoas, a natureza era magnifica se os putos saíssem cá para fora por um mecanismo qualquer que não fizesse uma mulher lembrar um pito do campo preparado para o churrasco. isso é que era magnifico!

ou que não as transformasse em hormonas andantes que choram a lembrar-se da imagem do pito de churrasco que vão parecer.

ou se arranjasse outra maneira qualquer dos putos serem gerados sem ser num sítio por si só já ocupado com intestinos e estômago e outros órgãos que, parece que não, mas são vitais à nossa sobrevivência e que ficam todos espalmadinhos com mais três ou quatro quilos de carne a ocupar o espaço que antes era deles.

isso é que era coisa para agradecer à natureza!

agora... achar que o altruísmo da dita se vê na antecipação da tortura da privação do sono por dois meses antes do necessário...

 

filhas, eu sei que as hormonas deixam-nos a todas loucas.

a mim, por exemplo, além da choradeira tenho um sério problema de burrice cerebral. o caso é tão grave que me esqueço de palavras, expressões e até de ter feito certas coisas. na semana passada, por exemplo, o rapaz tentava explicar-me o tamanho de um sofá para a casa nova e eu só conseguia pensar que uma mesa (juro) não podia ter aquele tamanho todo, apesar dele repetir sofá constantemente.

pronto.

é bondade da natureza deixar-nos neste estado. ficamos meio assim... atrasadas (nem todas. isto é só para as de classe inferior como eu). 

 

mas daí a agradecer por isto tudo e achar que sim, não há nada melhorzinho que estas cenas todas... se calhar já é coisa para estudo médico. 

digo eu, que às vezes nem sei o significado de estudo. 

 

agora vou só ali agradecer à natureza o inchaço das minhas pernas.

claramente é a preparar-me para os dias vindouros em que elas vão inchar por andar a correr atrás do puto.

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