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pesadelos

por M.J., em 23.11.17

costumo ter um pesadelo recorrente:

estou numa encosta, a subir, equipada para a caminhada, roupa desportiva, sapatilhas, cabelo amarrado, pequena mochila com água e barras energéticas. fui à casa de banho antes de começar e estou plenamente preparada para a subida. não consigo ver o topo do que me espera mas sei que vai ser longa.

no entanto, estou preparada.

começo a subir.

por norma não me lembro do clima. sei apenas que subo. continuo e caminho.

passado um tempo começo a agarrar-me às coisas, no objectivo de ter impulso.

seguro-me a arrancas de árvores que aparecem para conseguir prosseguir, às raízes da encosta e aos galhos secos. ganho balanço apoiada desesperadamente em coisas que me levem a continuar. 

estou cada vez mais cansada. às vezes vou de gatos ou de joelhos. nunca me lembro de parar, nunca me lembro de continuar sem ser segura a coisas.  

subo, subo, subo e nunca chego ao topo, acabando por concluir - naquela agitação e cansaço - que terei sempre de subir, agarrando-me ao que me encontro para ter impulso mas nunca atingindo a meta.

que nem sei o que seja. 

 

acordo invariavelmente transpirada, ofegante e cansada, como se subisse realmente algo.

o alivio costuma atingir-me como uma onda, quando percebo que estou na minha cama e ele dorme - agora, este pesadelo é recorrente desde que me lembro - ao meu lado. 

levanto, bebo água.

de todas as vezes me parece que foi a primeira vez que sonhei com aquilo.

nunca descortino significado.

 

sonhei outra vez esta noite. 

acordei com a chuva a bater numa intensidade desabrida na janela.

levantei-me e vi as horas. antes olhava para o relógio no meu quarto de infância, um rádio relógio com um mostrador das horas a vermelho fluorescente. agora pego no telemóvel.

eram quatro da manhã. levantei-me. bebi um copo de água na cozinha às escuras e olhei pela janela para os cedros na rua.

 

e pela primeira vez percebi que este pesadelo é uma alegoria da minha vida.

ou dos teus medos, diz-me uma vozinha na mente.

os meus medos e a minha vida não são, tristemente, uma e outra coisa? respondo.

não necessariamente, responde-me a vozinha, que também sou eu, na constante discussão comigo própria. 

encolho os ombros e volto para a cama. a chuva acalma e adormeço.

 

de que vale preparar-me para a caminhada se nunca atinjo o topo?

de que vale continuar a caminhar, constantemente, se nem sei à partida o que me espera na meta?

e se algum dia deixar de ter coisas a que me agarrar para atingir o impulso?

 

sei que é só um pesadelo. recorrente. real. 

juro que real. 

mas é também, sei disso, a personificação do que sou. 

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banalidades

por M.J., em 22.11.17

peguei na minha agenda pirosa e observei os dias.

ainda ontem era agosto - e andava a passear, numa despreocupação de cabelos ao vento - e estamos praticamente no final de novembro.

são estas constatações que nada dizem que me fazem os dias. 

o tempo corre e não corre, numa dualidade que nem sempre consigo entender e eu vou ficando para trás. 

 

alinhei, muito alinhadas, as tarefas do dia que me escapam, ou que queria muito adiar, e planeei semanas.

sei que há gente que detesta este planeamento mas de outra forma é impossível estar com certas pessoas, fazer certas compras, ir a certos sítios e ler certas coisas.

as horas fogem-me das mãos - contrariamente a outros anos - e se não me organizo as semanas transformam-se em meses e eu perdi coisas na procura de outras.

agendei na tradição quando faremos a árvore de natal. pus de lado a outra tradição do bolo-rei, trocada por uma ida à madeira, de pouquíssimos dias mas que servirá para respirar outros ares e fazer uma pausa da correria dos dias. 

 

depois de alinhar palavras, bebi um copo de água e fui à varanda.

o dia está cinzento, corre um outro carro na rua e há um vento que anuncia chuva que não vem.

estendi uma máquina de roupa, na banalissima tarefa doméstica que me lembra do meu TOC (pequenino), e me faz alinhar roupa por tamanhos e cores, com molas das respectivas tonalidades, à mesma distância e medida. não suporto que a empregada o faça porque não respeita aquelas que são, na minha mente, regras universais e impossíveis de ser quebradas. 

 

tenho estas minudências que nem toda a gente entende e que fui percebendo com os anos.

dão-me comichão no cérebro se não praticadas.

como deixar sapatos fora da sapateira, andar pela casa com os calçado da rua ou deixar chávenas de café fora do sítio. não sou paranóica mas preciso de respirar fundo e não enfiar uma caneta até ao cérebro para coçar a comichão que aquilo me provoca.

também não consigo dormir com louça por lavar, as almofadas do sofá fora do sítio ou acordar de manhã e não abrir a janela, nem mais nem menos do que a distância que já sei de cor. 

herdei estas coisitas da mamã. ela, por exemplo, não consegue ver um tapete fora do sítio ou um vidro sujo. faz parte de quem é.

eu julgara que não era assim até perceber as minhas coisas: como não suportar deixar estragar alimentos, mesmo que perca tanto tempo a tratá-los que acabam por ficar mais caros do que se comprasse outros. como todas as castanhas que se iam estragando e eu descasquei-as, uma a uma, descartando as estragadas e congelando as outras. e a irmã do rapaz, quando soube: credo que seca, mais valia comprares. e eu, os ombros encolhidos, na aprendizagem que não se diz tudo o que se pensa ou, corremos o risco de passarmos por fedelhos irritantes.

 

estendi roupa, numa obra de arte simétrica, e reguei plantas.

costuma ser a pausa das onze, em horários a cumprir para me mexer.

trabalho com concentração e esqueço que sou um corpo mais do que mãos e olhos e quando dou conta estou rígida faz horas, sem mexer um músculo que não os essenciais ao trabalho.

nessas alturas estico-me e é como se mil alfinetes me apertassem as articulações, rígidas da múmia em que me transformo.

instituí por isso o regime das pausas e tem corrido bem.

 

reguei plantas e tomei um café.

alguém abriu uma persiana no prédio e o som espalhou-se pela rua e pelo monte, como num eco de lembrança. tirei as folhas secas de uma sardinheira. aparei a salsa, os oregãos e o cebolinho, na mini horta de uma prateleira da varanda. 

voltei ao trabalho vinte minutos depois.

agora, é quase hora de almoço e a manhã já se foi.

os dias fogem-me na pressa das horas e não sei onde vão ficando.

mas as plantas estão viçosas, a roupa está milimetricamente estendida e avancei mil tarefas de trabalho que estavam pendentes. 

 

o tempo não é meu mas tenho-o transformado em pedaços de algodão doce. 

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oh vai ver ali:

vamos à madeira daqui a uns dias

por M.J., em 22.11.17

das belezas naturais não preciso para já de recomendações.

já de papa, paparoca, comida, manjares, restaurantes e afins ficava mesmo muito agradecida que chutassem sugestões. 

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faz sentido afinal?

por M.J., em 21.11.17

tenho passado pouco tempo nisto dos blogues. a vida vai andando e correndo e às vezes não há vontade nem tempo, nem paciência.

já falei várias vezes sobre isso.

depois talvez seja um pouco mal geral, este meu abandono, provocado pelo abandono aos poucos daqueles que eu seguia afincadamente. a gaffe escreve cada vez menos, a maria tem o blogue em serviços minimos, a magda tem ideias fantásticas de quando em quando (e mesmo a iniciativas dessas há sempre um dois  que não compreendem o conceito) mas só de quando em quando... e o meu blog favorito simplesmente desapareceu, eclipsou-se depois de meses sem escrever. 

está mau.

 

há meses que mal lia blogues. fi-lo hoje, numa curiosidade ressurgida.

está tudo no mesmo. se as personagens mudam o conceito permanece. continua a mesma modorra de dias santos e feriados. há toda a trama de um livro gigante e secante, que não termina por mais páginas que se virem. as personagens imutáveis, na certeza de que assim é que é.

há um cheiro a naftalina.

depois percebo que é a constância da vida, as pequenices que fazem dela o que é, e encolho os ombros.

 

vou alimentando este na sensação cada vez mais forçada que o faço em honra do que me deu e não pelo momento.

porque me custa ir deixando ou abandonando um espaço que me deu tanto, tantas pessoas, tantas gargalhadas, tanta comoção.

não o deixo ao abandono. não posso. mas nota-se, não há como negar, que os textos são mais escassos, mais curtos. que não respondo à maioria dos comentários e não há aquela espontaneidade que fez nascer este espaço.

 

que a m.j. morreu não é novidade.

morreram os palavrões, a irritabilidade, a arrogância do saber tudo sem nada saber.

morreu esse pedaço de mim porque a vida não é uma poça de água estagnada e vamos evoluindo com os dias. 

 

e nessa constatação começo a questionar:

faz este blog sentido?

quem aqui passa afinal?

aqueles que permanecem, que foram ficando com o tempo e viram aquilo que eu considero evolução (também pode ser desevolução, seja lá isso o que for)... a vocês que ficaram, que restam num punhado de almas, que provavelmente ficaram pela m.j. que viram... a que provocava, irritava, chateava... faz sentido manter isto afinal? mesmo que ela seja já outra, cada vez mais parecida - se não o total reflexo - de quem a escreve?

que encontram vós que valha a pena continuar a alimentar este espaço?

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natal

por M.J., em 21.11.17

aprendi a gostar do natal.

depois de uma data de anos de costas voltadas, na rebeldia de uma adolescência e juventude, aliada a uma série de factores que não vêm ao caso, aprendi com o tempo a gostar novamente do natal.

assumo a piroseira.

gosto das luzes, que piscam nas entradas. as brancas, as coloridas, as embaçadas e as brilhantes.

gosto das árvores de natal mesmo as pequeninas, repletas de bolas. prefiro decorações vermelhas e douradas mas também não desgosto dos azuis e até dos rosa néon.

gosto da ideia do pai natal, dos presentes e do azevinho. acho piada a postais de natal, a imagens idílicas e até ao anúncio da coca cola.

deliro com musiquinhas natalícias e vejo filmes da época, uns iguais aos outros, que dizem todos o mesmo mas me comovem.

incluindo o mr bean.

 

gosto de globos de neve, que colecciono à entrada.

gosto de pijamas de natal, meias de natal, pratos de natal e velas de natal. compro muito menos do que compraria porque detesto acumular tralha. mas passo horas, nesta altura, a ver coisinhas e bugigangas absolutamente deliciada.

 

creio que foi a mamã quem me pegou o gosto por estas pirosices. 

a mamã que me jurou a pés juntos, durante seis ou sete anos de vida, que existia o pai natal. a mamã que tinha uma resposta na ponta da língua a todas as minhas objecções: mas afinal como é que ele cabe na chaminé? tem uns pós mágicos. mas afinal como é que ele entra nas casas que não têm chaminés? tem chaves mágicas. mas afinal por que é que há meninos que dizem que ele não existe? porque não veem o telejornal. não o viste ontem na televisão? e eu que sim, ia acreditando, até ao dia em que a ana, fartinha de saber que pai natal só o dela, e mal, num disfarce mal feito num ano anterior, desmascarou tudo e disse-me preto no branco que não existia tal coisa, e eu, no respeito pelas minhas convicções e no facto de ser um palmo maior que ela, dei-lhe uma carga de pancada, as duas enroladas no chão como selvagens, cabelos arrancados e uma alça da mochila rebentada. e a mamã chamada à escola depois, obrigada a contar-me que era verdade, não havia pai natal, era ela, fora sempre ela. e a minha desilusão e choradeira incrível, na incapacidade de aceitar que não só não existia aquilo que dava cor à época, como me tinham mentido tanto, durante tanto tempo.

a mamã que desde o dia um começa a preparar a mesa de natal, uma toalha rendada na mesa que ninguém usa, azevinho e romãs, frutos secos e chocolates, que se vão amealhando até não caber absolutamente nada no dia 24, e o rapaz, a primeira vez que lá jantou, olha lá, quantas pessoas vêm? e eu, somos só nós. e ele só nós? mas há aqui comida para o continente africano inteiro!

 

fiz as minhas próprias tradições de natal, que vamos repetindo ao longo destes cinco anos:

montamos a árvore no dia 1 de dezembro. acompanho com célines dions, mariahs careys, michaels bublés mesmo que os ache a todos ridículos. sacudo o pó da árvore e vou acumulando as lembranças que nela constam e que vão tendo significado por serem dadas por pessoas importantes, mesmo que nada conjugue com nada.

faço um bolo rei - que mais não é que uma tentativa - no dia 8. fica sempre demasiado grande, com demasiada fruta e demora demasiado tempo entre levedar e afins. e acabamos sempre por ir beber um cappuccino e ver as luzes de natal, ao fim da tarde, quando já é escuro e cheira a canela no ar. 

compro pijamas novos todos os anos, que se vão tornando cada vez mais espampanantes. embrulho em papel colorido e coloco debaixo da árvore, numa das tradições que mais prazer me dá. acompanho com chinelos de quarto e meias às riscas, ou às bolas coloridas. e no dia 25, cedinho, vestimo-los como se o pai natal acabasse de chegar e passamos o dia de pijamas novos, ridículos e pirosos, enjoados de chocolates e comida, musiquinhas e filmes de natal, esparramados pela casa, respirando canela, açúcar e azevinho.

e desde que me disseram que o pai natal não existia... nunca tive natais tão doces.

 

vou fazer a árvore dia um.

tem presença de muitas pessoas importantes em decorações desirmanadas e que não conjugam.

e gostava que aqueles de vós que me são importantes fizessem parte nela também.

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qual é a probabilidade

por M.J., em 20.11.17

de depois de duas semanas de obras do vizinho do lado, a vizinha de baixo venha bater-me à porta, às dez da noite, a queixar-se que a nossa casa de banho está a inundar-lhe a parede da sala?

e de o perito do seguro vir cá hoje e irmos entrar nós em obras?

 

é que isto, de facto, só a mim!

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amor

por M.J., em 17.11.17

estendo-te as minhas mãos e não digo que te amo.

as palavras são banais e perdem-se nas curvas das horas. olho-te com desvelo e cuido. cuido de cada pedaço de quem és e somos - somos um e outro e quando damos conta somos um - e sinto os pedaços das tuas coisas como minhas.

 

não me esqueço de fazer a tua marmita, antes de dormir, mas esqueço-me de dizer do orgulho que sinto em ti. não sabia a dimensão de um sentimento destes perdida na significado mais cru da palavra. grito ao mundo sem gritar o sentimento de felicidade que me provoca sentir que estás na minha vida e que és parte dela e que és, tem dias, a vida que eu sou.

integralmente. 

 

não me esqueço de ver se tens roupa lavada e passada, no armário, para cada dia em que acordas num rompante mas esqueço de sussurrar, antes de dormir, que te amo. num sentimento atroz que ultrapassa a paixão, o desejo e se mistura com casa, lar, cumplicidade, intimidade e sensação de frio e calor, tudo de uma vez só.

e me faz quem sou.

 

não me esqueço de ir às compras, por ti, que detestas. vejo o que mais gostas e trago, numa preocupação e vontade de te tirar dos ombros as tarefas domésticas de que não gostas. mas esqueço de te dizer bom dia, de manhã, quando damos encontrões pela casa, numa correria de começar as horas. 

quase sempre.

 

não me esqueço de cozinhar o que mais gostas. de marcar as consultas a que não queres ir. de questionar as tarefas que adias com pouca vontade e não posso fazer. mas esqueço de te pegar na mão, aos fins de semana, e jurar amor para toda a vida. 

na única certez que tenho.

 

cedi em quem sou, sem dar conta.

não gostava nem queria fazer marmitas, pensar em roupa, passada e lavada, comprar coisas domésticas essenciais a uma vivência, planear refeições saudáveis, organizar dias livres e cozinhar. esta não era quem eu era. esta era outra, que eu achava desprezar, no não saber da dualidade de uma vida. no não saber das cedências, dos compromissos, do quanto nos transformamos, naturalmente, no correr das horas tranquilas de um dia. de uma vida.

 

não me esqueço de cuidar como manifestação mais forte - aquela que vi também uma vida toda - do amor.

troquei as palavras, de que eu afirmara ser mestre, por gestos e actos pequeninos, insignificantes ao lado da grandeza do que poderia dizer. 

estendo-te as minhas mãos e não digo que te amo:

mostro-te.

 

 

 

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banalidades

por M.J., em 16.11.17

quem sou esconde-se de mim.

mascaro qualidades e mostro defeitos. aligeiro defeitos e publicito qualidades, numa espécie de adaptação ao que é esperado.

na maior parte do tempo, sou pequenina, medricas, vulnerável como o raio e cheia de não me toques.

 

se usasse isto a sério e mostrasse aos outros a fealdade que escondo, seria uma coisa digna de se ver.

como aquelas fulanas que saem todas as noites, com pestanas que não são delas, lábios embutidos, cabelos que se tiram e põem, rabos que se escangalham na saída da cueca, mamas que encolhem quando o sutiã é retirado e depois de devidamente desnudas são uma imagem pequenina e desenxabida, com um ar muito banal e comum cujos atractivos se esfumaram porque não eram. 

há os bons e os maus na linearidade. os pecadores, os perfeitos, os bonitos e os jovens. há pessoas que têm flores no cabelo, modulam as palavras como canções e se transformam em imagens que se seguem. com gosto. 

depois há os como eu.

pessoas cheia de vulnerabilidades, que ladram ao vento de dentes erguidos, um rosnar constante de irritação, num cérebro pequeno que se acabrunha ao confronto. 

são as que se devem evitar.

não que, ao estar com elas, se acabe mordido.

mas há o risco de se ficar com dor nas mãos de tantas festinhas que se lhes fazem na cabeça para as pôr a ronronar. 

 

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inverno

por M.J., em 14.11.17

sou uma pessoa de inverno. gosto de chás quentes, noites longas e dias curtos. gosto de meias às bolinhas e às riscas. tenho sempre os pés frios. mesmo com meias quentes, com riscas ou bolas. e as mãos. ouço muitas vezes as mesmas músicas. dou comigo a sentir falta de livros que li e que sei de cor. volto a lê-los outra e outra vez. descubro novas vírgulas e fico feliz. sinto-me incompleta a maior parte do tempo. e questiono constantemente as minhas acções. nunca chego a resposta nenhuma. às vezes escrevo só para sentir que domino o tempo. a não ser quando tenho as mãos frias. dói-me escrever com gelo nos dedos. mas acalma a dor da alma mesmo que sejam coisas sem sentido. e pretensiosas. percebo as vezes que fui uma idiota. não resolve nada. constato feitios e opiniões e atitudes. não domino os pensamentos. quando entro em cadeias deles chego sempre à conclusão que não mereço um pirulito furado. não é agradável. outras vezes acho-me um caso perdido por incompetência alheia. entro em considerações completas do que não fui e não sou por culpa do outro. dura sempre muito pouco porque estou formatada para perceber que a culpa é minha. sempre. mesmo quando não é, é porque em última instância somos sempre donos de quem somos. sou uma pessoa de inverno. gosto de chuva, dias cinzentos, músicas melancólicas e folhas secas. gosto de vidros embaciados pela humidade, de vapores suaves dentro de uma cozinha e da alquimia do conforto. gosto de inverno e por mim todos os dias da minha vida seriam inverno. por mim toda as coisas seriam as minhas decisões e a vida seria um barco em água estagnadas, em que os dias se perdem na igualdade dos dias anteriores. por mim as decisões seriam concretizadas, mesmo aquelas que não controlamos e demoram o tempo que não temos, ou achamos que não temos, perdidos a contestar o que ainda não conseguimos. sou uma pessoa de inverno. e tenho um medo que me pelo de todos os invernos de que disse mal, na sensação que é castigo pelos que agora não vêm. sou uma pessoa de inverno e este texto é uma metáfora de tudo o que queria dizer e não posso. porque sou uma pessoa de inverno e abri demasiadas portas agora este espaço tem tantas frestas, tantos vidros abertos, tantas portas escancaradas, que quem sou não pode desnudar-se aqui. e é uma pena. sobretudo porque o inverno não chega.

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30 anos depois

por M.J., em 13.11.17

e a vida não perde a oportunidade de me surpreender com as pessoas que coloca no meu caminho.

e me ajudam. 

sem nenhum interesse.

sem pedir nada em troca.

apenas porque sim. 

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