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saída de emergência

por M.J., em 20.07.18

a vida é uma corrente interminável de ses.

envolvem-se uns nos outros de tal forma que, tem dias, a não ser que os mandemos dar uma volta, é impossível respirar e sufocamos dentro da corrente.

 

durante anos não tive a possibilidade de controlar nenhum dia.

e as vivências - dentro das pequenas tragédias domésticas que nos fazem quem somos - eram feitas por mim de maneira a tentar sentir que podia, de alguma forma, moldar as coisas à minha altura e não ao que me era imposto. 

não resultou.

mesmo com a mochila preta debaixo da cama. 

 

anos mais tarde, quando percebi que podia, efetivamente, controlar as grandezas da vida, tornei-me numa obstinada control freak.

foram dezenas de planos a e b e c e d e todos os que cabiam na minha mente rebuscada.

jamais, dizia eu, jamais a vida me apanhará na incerteza de não saber qual o trilho a seguir. e jamais me apanhará desprevenida, encostada à parede, sem opção de escape.

eu tinha o pleno controlo de cada pedaço da minha vivência, do meu destino e de quem seria e nunca uma surpresa seria capaz de me apanhar na esquina porque as tinha previsto e controlado todas, muito anotado, devidamente planeado.

 

tal como as saídas de emergência nos aviões eu tinha, juro que tinha, um plano de fuga delineado.

e nada nem ninguém poderia ser mais importante do que a possibilidade de fugir.

nenhuma mala, nenhuma pessoa, nenhum elemento poderia sobrepor-se ao espaço entre os bancos e a saída de emergência.

ponto assente.

para sempre.

achava eu.

 

acontece que os ses na corrente interminável da vida são uma constante e dou por mim a esquecer os planos de emergência.

engulo o aviso que vem lá do fundo, que está gravado na pele e num pedaço de mim quase primitivo.

vigilante.

finjo que não o ouço a gritar-me em cada passo que dou no sentido de atafulhar o espaço vazio que me permitiria saltar em caso de emergência.

e aquele espaço outrora livre, repleto de ar vazio, todo à minha disposição para a fuga vai aos poucos, cada dia um centímetro a mais, sendo preenchido por elementos que impedem a possibilidade de saltar perante o medo.

que impedem a possibilidade de fugir perante a sensação de desconhecido.

que impedem a capacidade de levantar, correr e ir quando o controlo desaparece.

 

IMG-20170207-WA0000-002.jpg

 

deixei de controlar o que nunca controlei.

deixei encher o espaço outrora vazio, que me permitia manter a certeza dos planos bs.

deixei que as luzes de saída de emergência se apagassem. 

não sou só eu e a fuga com outros é mais dura, mais difícil, mais impossível.

a fuga com bagagem atrapalha.

 

mas que seria de nós sem o outro que ocupa o espaço vazio?

quem seria eu repleta de ar entre mim e a emergência?

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chapadas de luva branca

por M.J., em 18.07.18

se há coisa que a vida me dá em abundância é chapadas bem fortes de luva branca, levando-me a todas as situações que jurei, com a boca toda escancarada, que não queria.

como que a mostrar-me que as minhas convicções são tão voláteis como uma fumaça curta numa fogueirita de inverno e quando as juro é como uma pateta alegre que não sabe minimamente o que diz. 

todas.

sem falhar uma.

 

e tendo em conta tudo isto, é bem provável que daqui a cinco anos me encontrem sentadinha numa cadeira de jardim, de mama exposta ao público (uma ou duas mamas, depende da circunstância), com uma criança em pé, cheiinha de dentes a alimentar-se, enquanto pergunto a quem passa:

- quê que foi? nunca viram a beleza da amamentação? o meu rico filho tem dentes e depois? mama até ir de erasmus, ou até deus nosso senhor mandar. 

 

isso enquanto o nosso cão, um de raça muito raçada vem ter comigo saltitante, um lenço vermelho ao pescoço enquanto lhe digo:

- venha cá bobi, dê cá uma lambidela à mãe que não tem mal nenhum ter acabado de limpar os seus testículos com a língua.

 

ah, e claro, não podia deixar de faltar o conselho a quem olhar de soslaio:

- minha querida, a menina não sabe nada do que diz acerca de ser mãe. só quem por lá passa entende.

 

vão ver se não vai ser. 

oh senhores!

alguém que me dê um abanão antes disso. 

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depois de tanto tempo

por M.J., em 17.07.18

sem me surgirem as grandes dúvidas acerca da humanidade, fui bafejada por uma esta manhã e agora não sei que faça.

 

as gentes que afirmam, com grande convicção, que amam todos os animais mais do que pessoas o que fazem nos seguintes casos:

1. quando lhes aparece uma ténia? alimentam-na para criação? voltam e colocá-la no lugar original juntamente com um copo de água quando ela sai, por lapso, na sanita? 

 

2. e quando apanham piolhos? não lavam a cabeça para não afogar os bichos? criam pequenos rodos de cabelo para aumentar a aderência familiar das lêndeas?

 

3. e  quando se lhes surge um casal de moscas varejeiras na cozinha? colocam um pedaço de carne ao sol, até apodrecer, e depois transportam-no até à mesa para os bichos se alimentarem?

 

4. e no caso de chatos? e pulgas?

 

mas a dúvida maior é:

e quando é uma carraça na orelha de um cão? qual direito à vida prevalece? há animais de segunda e de primeira? também há racismo e xenofobia no mundo animal? não são todos anjos de deus?

 

caramba que agora estou numa inquietação. 

isto para mim é já o puto a mostrar personalidade. 

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sabão

por M.J., em 16.07.18

a mamã lavava a roupa num tanque da vizinha. 

durante anos não houve máquina de lavar roupa e todo o vestuário passava pelas mãos da mamã que, de inverno ou verão, ensaboava, esfregava, enxaguava e fazia escorrer a água da roupa, transportando-a depois de lavada numa grande bacia vermelha até casa, exposta ao ar em cordas ao pé do quintal.

nos dias de inverno mais frios as mãos da mamã ficavam vermelhas e áridas.

às vezes o sangue quase parava de circular no gélido da água corrente a que se aliava a lixívia neoblanc e o sabão clarim. 

 

detalhe_01_clarim.png

 

nunca esqueci o cheiro destes dois:

cheiram-me a lavado, a novo, a amor, dedicação e sacrifício.

e hoje relembram-me as mãos pequenas e delicadas da mamã, a aliança jamais retirada do dedo anelar, as gretas nas pontas dos dedos e o cieiro nas costas da mão.

 

as mãos da mamã faziam coisas maravilhosas e lavar a roupa era uma delas.

às vezes os lençóis brancos ficavam estendidos na corda a perfumar de sabão o odor das flores do quintal, estendidos ao vento.

e eu imaginava neles bandeiras de piratas, castelos de princesas e campos de flores sem fim.

 

em cada pedaço do que fazia a mamã depositava - e deposita - todo um amor enorme à pessoa que sou eu.

a dedicação de ensaboar os meus fatos de treino da escola, as minhas calças de domingo ou as blusas com grandes golas de renda que a avó me dava era a mesma com que hoje compra roupas para um neto ou neta que ama tanto como se já o tivesse pegado nos braços.

a minha mãe é a definição de amor.

e eu, que vou ser mãe não tarda, morro de medo - um medo cortante, frio, gélido, que mata o cheiro do sabão clarim, que corta com dores mais agudas do que as gretas das mãos, que corrompe mais que o cieiro do frio - de não saber ou conseguir amar como ela amou a vida que vou apresentar ao mundo.

e se eu não souber fazê-lo?

 

e se em vez de sabão clarim o meu amor cheirar a vinagre fétido, suor escorrido e ao azedo das coisas pequenas?

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estado de desgraça besuntado

por M.J., em 13.07.18

como sou assim para o anafada a barriga não se notou durante algum tempo.

na verdade, entrei para os quatro meses sem ver alterações significativas o que, para ser sincera, me agradou imenso. uma amiga minha, por exemplo, magríssima, tinha uma barriga substancial (em comparação com o corpo) já aos três meses.

pelo que, entrar na marca dos quatro meses sem barriga me animou.

 

não vale a pena estarmos com mimimis.

uma das coisas que me faz sentir pior estando grávida é o ter de mostrar ao mundo que estou. dizer a amigos, colegas e conhecidos. responder a perguntas intermináveis, mesmo que as minhas trombas tentem acabar com a conversa à partida.

e nomes, já escolheste? e a data do parto, quando é? tens sentido enjoos? vão mudar de casa? já sabes qual creche o queres pôr? já viste as promoções da chicco?

arre égua!

no entanto, sim, tenho de dizer que estou prenhe não vão achar que foi desta que comi o frigorífico inteiro.

e tenho de me habituar à ideia que vou ficar ainda mais gorda, vou caminhar como um pinguim e, muito provavelmente, guinchar como um pequenino leitão no dia da parto.

é a vida: entrou, tem de sair. 

 

- não me julguem. estou com desejos de ter o puto nos braços mas passava bem sem esta fase. se a vossa gravidez foi um pleno estado de graça ainda bem para vós. a minha até agora foi de desgraça.-

 

enfim, andava uma pessoa radiante, sem sequer pensar em estrias e cremes e afins quando no início da semana foi vestir umas calças que lhe ficavam apertadas.

olha dali, olha dacolá, e sim, pronto, há ali uma protuberância.

não que a pessoa tivesse uma barriga de abdominais linda e chapada mas, ainda assim, aquela redondez não estava lá antes.

vai que não vai a pessoa começa a pensar em estrias vermelhas, a pele estalada com aquelas coisas feias que já viu em outros casos e toca de ligar à amiga farmacêutica na busca de um creme devidamente eficaz que não custe os olhos da cara.

depois da recomendação, a pessoa compra o dito e começa por aplicar todos os dias antes de dormir.

nheca. 

nheca duas vezes.

o creme é hidratante, pois é, mas não é aquela hidratação logo toda absorvida. as mãos ficam gordurosas, a barriga fica gordurosa, as mamas ficam gordurosas. há gordura que nunca mais acaba e, por uma vez na vida, não é só a minha. 

 

significa isto que:

  1. além dos intermináveis enjoos e vómitos dos primeiros três meses;
  2. do suplemento alimentar que tomo todas as noites, que me cheira a peixe e me dá ânsias de vómito sempre que o ponho à boca;
  3. de chorar que nem uma madalena por tudo e por nada (literalmente tudo e nada);
  4. de só me apetecer comer queijo derretido (nem vale a pena questionar, sobretudo numa casa onde não se consumia queijo porque o rapaz detesta e fica verde só de ver tal coisa no frigorífico);
  5. de adormecer em qualquer lado...
  6. tenho agora de besuntar a barriga todos os dias para tentar evitar umas estrias horrendas na pança.

 

isto de estado de graça não tem nada. 

e em boa verdade vos digo: nunca entendi tanto o ronaldo como nos dias que correm.

tenho de ver se ele me passa o contacto da barriga a que recorreu.

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é que as alergias tinham que vir em força.

já nem falo meus senhores.

espirro a falar.

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constatação

por M.J., em 05.07.18

de todas as desilusões que a vida me deu;

de todos os traumas que me fez viver;

de todas as angústias e desesperos;

de toda a sensação de infelicidade eterna quando era suposto não saber o sinónimo de tal;

de toda a ideia de desistir e acabar;

de todas a vontade de deixar de respirar, coração bater ou simplesmente não sentir o novo dia...

 

a vida compensou-me largamente, sem eu jamais esperar, nas pessoas que me deu, me fez conhecer e pôr do meu lado em lealdade, amizade, amor e companheirismo.

são poucas, é certo.

mas valem por tudo, compensam por todos e mostram-me a bênção que é estar viva.

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decisões

por M.J., em 04.07.18

o maior stress de viver no mundo adulto é, para mim, a necessidade de assumir responsabilidades, decisões e etecetera e tal que são determinantes e farão parte de nós o resto da vida.

não é que as pequenas decisões diárias sejam pouco importantes.

toda a gente sabe que optar por ir à rua cinco minutos antes ou cinco minutos depois poderá ser a diferença entre morrer atropelado ou ficar cá por mais um tempo. no entanto, as grandes decisões, aquelas que precisamos mesmo de dormir sobre o assunto para conseguir chegar à resposta correta (e nunca há um certo ou errado, uma cruz ou visto, a caneta vermelha ou verde numa folha branca) são capazes de nos provocar úlceras e vontade de voltar a um tempo onde a maior dificuldade era aprender quanto é dois mais dois.

 

depois da notícia da gravidez (e já indo ao encontro de uma decisão que havia tomado no final do ano passado) começamos na procura de casa para comprar.

durante parte da minha adolescência e juventude jurei a pés juntos e com uma mão sobre o coração que nunca, jamais, para sempre nunca iria comprar casa. e sabia um por um todos os argumentos muito batidinhos, alinhados para a decisão. parecia-me de um provincianismo e pequenez muito grande endividar-me a vida toda, ficando presa às mesmas paredes para todo o sempre, em função de um imóvel.

depois, como em tudo, fui aos poucos - pouquinhos - mudando de ideias.

faz parte.

quem eu sou não é quem eu era e, muito provavelmente, quem serei.

na verdade,  todos os dias duvido mais daquelas convicções que me parecem muito convictas uma vez que, por um motivo ou outro, são aquelas que a vida - e eu - vamos apagando ficando depois, ambas as duas, de boca aberta, escancarada, com os dentes todos de fora, a rir do disse, pensei ou jurei. 

 

começamos portanto à procura de casa.

escolhemos o sítio (e não é coimbra, esta nunca foi a minha cidade-casa), fizemos uma pesquisa exaustiva online e percebemos que, de repente, as casas são todas feitas a barras de diamante. 

o imobiliário, vá-se lá saber, é novamente a galinha dos ovos de ouro.

casas que até há bem pouco tempo eram vendidas com muito custo, quase um favor feito, são agora oferecidas como pequenos palácios, ainda que precisem de mais obras que os anexos dos papás lá na terra e tenham mais surro que a toca dos leões no zoo. 

incrível. 

e por isso, depois de vasculhar tudo o que era aplicação online e termos noção dos preços praticados, procuramos ajuda de uma imobiliária.

e oh senhores, se o homem soube vender.

 

num sábado de manhã cinzentão, os meus enjoos controlados, foram-nos apresentadas duas moradias (parece que é o nome correto) que poderiam  ir de encontro ao que procuramos (menos no preço).

a primeira, nos arredores da cidade, tinha três cães mal cheirosos no pátio, ervas no jardim que faziam dele a selva amazónica e musgo num lago que, de certeza, em tempo teve peixes (e deviam estar lá todos mortos dado o cheiro que dali emanava). além disso estava a habitada pela proprietária que, mesmo sabendo da visita, se encontrava alegremente a tomar o pequeno almoço na cozinha, com um robe florido e cabelo muito sujo.

pois bem, pensamos, se tanto dinheiro só consegue comprar isto desistimos já, esperamos que a bolha rebente e compramos daqui a uns anos, já velhos e sem paciência, mas não roubados. 

a segunda casa o oposto.

depois do horror da primeira (as teias de aranha nas janelas, os cães com pelo colado a cheirar mal, os quartos do tamanho de pequenas casotas) foi-nos apresentada a outra opção. mais cara mas nova, numa zona de moradias novas, acabamentos que sim senhor, um quarto do tamanho de meio apartamento onde vivemos hoje, arquitetura moderna, espaço de sobra cá fora e exposição solar que nunca mais acabava).

o contraste era tão grande que não havia outra opção que não nos apaixonarmos.

reservamo-la antes de tomar uma decisão.

e foi isso que me fez comichão no cérebro durante três semanas.

 

aqui estou eu, aos trinta e um anos, prenhe, envolvida num projeto profissional que deu provas de conseguir ser um sucesso mas que depende totalmente do meu trabalho - a trabalhar com náuseas é cá um encanto... - sem ter viajado um terço do que queria viajar, sem ter vivido um quinto da adrenalina que queria ter vivido, a pensar num crédito para a vida toda (e é bom que seja amor para vida toda também) para viver numa moradia às portas da cidade.

a típica vida que jurei faz tanto tempo não querer.

e imagino-me já de avental e vestido branco, muito vaporoso, a fazer um bolo nas tardes de domingo, com o sol a entrar a jorro e o arlindo (vai mudando de nome consoante o dia) a brincar no jardim com um ladrador, ambos vestidos com uma t-shirt a combinar.

é então isto que quero aos trinta e um anos.

é esta pacatez que desprezei, esta noção de vida nos eixos, mesmo que haja uma parte de mim a lembrar-me que poderia muito bem viver neste apartamento pequeno, ouvindo os gemidos das meninas dos vizinhos em altas horas da noite (ele deve pagar, não encontro outra alternativa para tamanho espetáculo) ou as discussões da família do lado quando a adolescente lá de casa quer sair à noite; ou o puto de baixo que joga futebol contra as paredes da sala e entoa pelo prédio. poderia usar a brutalidade de dinheiro que vamos dar de entrada e que poupamos com tanto afinco para uma fabulosa viagem de um mês e ainda sobrar bastante para comer em restaurantes premiados vestida com roupa de lojas onde me recuso a entrar.

 

podia e não vou fazer.

vou escolher a outra alternativa mesmo que cheiinha de medo, a transbordar de receio do amanhã.

 

olho a minha barriga que cresce aos poucos:

arlindo, arlindo... não nasceste ainda e olha as decisões que já quis tomar por nós. 

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breve resumo dos acontecimentos

por M.J., em 29.06.18

nestes praticamente três meses que estive ausente do mundo, deixo todo o resumo de coisas acontecidas (e sem a devida ordem cronológica):

  • vomitei;
  • deixei de conseguir trabalhar.
  • fiz 31 anos deitada na cama, num domingo solarengo, a desejar estar morta para não ter de vomitar tanto.
  • os jogadores do sporting foram vomitados com porradinha nas trombas em plena academia.
  • o bruno de carvalho disse que era chato mas que tínhamos de nos habituar à criminalidade.
  • vomitei.
  • deixei de conseguir sair à rua.
  • o brasil parou por uma greve de camionistas.
  • em portugal tentou-se copiar não abastecendo em determinados dias da semana.
  • não pegou.
  • vomitei.
  • o rapaz tentou tirar-me de casa com todos os artifícios só conseguindo quando me disse que íamos comprar cerejas.
  • comi meio quilo de cerejas bem lavadas, tal como a médica mandou.
  • fui chamada de irresponsável na maternidade porque as devia ter desinfetado com uma cena acabada em "lina".
  • vomitei.
  • 3 jogadores do sporting rescindiram do clube.
  • liguei à médica que me acompanha em prantos porque não tinha desinfetado as cerejas e a enfermeira acusara-me, praticamente, de maus tratos fetais.
  • a médica disse para estar descansada e continuar a comer as cerejas bem lavadas.
  • vomitei.
  • mais três ou quatro jogadores do sporting foram embora.
  • bruno de carvalho disse que não se demitia.
  • vomitei.
  • organizamos o festival da canção.
  • ficámos em último no festival da canção.
  • toda a gente de bom gosto musical já sabia que ficaríamos em último no festival da canção.
  • vomitei.
  • ninguém com bom gosto musical acharia que israel ia ganhar o festival da canção.
  • ganhou.
  • vomitei. 
  • começou a apetecer-me muito comer queijo derretido.
  • experimentei comer pizza.
  • vomitei.
  • a seleção estreou-se no mundial.
  • cristiano ronaldo foi condenado a pagar 18 milhões ao fisco espanhol e, para compensar, marcou três golos à espanha.
  • cristiano ronaldo é considerado um herói.
  • vomitei.
  • cristiano ronaldo marca um golo contra a seleção seguinte e portugal ganha o jogo.
  • cristiano ronaldo continua um herói.
  • vomitei.
  • salvador sobral não diz que é como o ronaldo mas paga impostos.
  • meio portugal ataca salvador sobral sem ouvir a entrevista ou ver o vídeo onde ele não diz o que dizem que ele disse.
  • vomitei.
  • cristiano ronaldo falha um penálti e deixa de ser herói nacional.
  • o herói nacional é agora um senhor que chamam de cigano e que fez uma coisa chamada trivela.
  • vomitei.
  • o novo herói nacional ataca o selecionador contra quem marcou a trivela dizendo que vozes de burro não chegam ao céu.
  • o selecionador da outra seleção, que afinal já foi selecionador da seleção dos heróis nacionais, diz que que burros não o atacam.
  • vomitei.
  • salvador sobral diz que se mete na coca para ter energia.
  • enjoei coca cola.
  • vomitei. 
  • acordei um dia sem enjoos e, em vez de ficar contente com isso, achei que a enfermeira tinha razão e eu estava em processo de perda.
  • liguei à magda em prantos.
  • liguei à médica em prantos.
  • liguei ao rapaz em prantos.
  • acalmei quando vomitei.
  • decidimos comprar casa, que nenhuma criança aqui caberá.
  • encontramos uma casa que gostamos muito.
  • vomitei.
  • bruno de carvalho diz que tem razão e vai processar toda a gente.
  • bruno de carvalho perde as providências cautelares todas.
  • vomitei.
  • bruno de carvalho diz que não vai à assembleia que visa destituí-lo.
  • bruno de carvalho aparece na assembleia que o quer destituir.
  • vomitei.
  • bruno de carvalho é destituído.
  • um barco com não sei quantas pessoas é impedido de atracar em itália.
  • bruno de carvalho diz que nunca mais é sócio ou adepto do sporting.
  • não sei quantas mil pessoas são abandonadas no deserto do sarah.
  • bruno de carvalho diz que afinal continua a ser adepto e vai impugnar a assembleia que o destituiu.
  • vomitei.
  • bruno de carvalho afinal já não vai impugnar assembleia nenhuma.
  • vomitei.
  • enjoei café.
  • enjoei canja.
  • enjoei pão integral.
  • ou de sementes.
  • ou de centeio.
  • vomitei.
  • marcelo desmaia em braga depois de visitar o bom jesus.
  • marcelo pode ter começado uma guerra ao apertar vigorosamente a mão de trump depois de ter recuperado do desmaio no bom jesus.
  • marcelo diz a trump que em portugal as estrelas de tv não são eleitas para a presidência.
  • vomitei.
  • trump separa famílias na fronteira.
  • trump põe crianças de três anos a depor.
  • trump volta atrás na decisão.
  • vomitei.
  • maria vieira aplaude trump e vomita contra emigrantes.
  • maria vieira emigra para o brasil onde arranja trabalho.
  • as famílias continuam separadas nos EUA.
  • vomitei.
  • oferecemos uma proposta pela casa que gostámos.
  • quintino aires chama salvador sobral de rato.
  • quintino aires pede desculpa mas não retira o rato do salvador.
  • vomitei.
  • a médica diz que ainda não consegue saber se é rapaz ou rapariga.
  • a médica avança, no entanto, que tem palpite de ser rapaz.
  • vomitei.
  • a mamã assume automaticamente que é rapaz e começa a chamá-lo de manel.
  • vomitei.
  • para contrariar a mamã, que me contraria, apelido a criança de altino.
  • bruno de carvalho pede compreensão a quem o destituiu e solicita que lhe tirem o processo disciplinar.
  • o rapaz diz que se chamar altino à criança me processa.
  • vomitei.
  • volto a escrever no blog.
  • alguém vem aqui muito rapidamente comentar o que eu comentei em tempos num comentário qualquer.
  • não vomitei.

é um bom começo, não é?

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hoje é daqueles dias

por M.J., em 28.06.18

que se pudesse... arrancava o meu estômago com as minhas próprias mãos, punha-o numa montanha russa, levava-o depois numa camioneta bafienta repleta de trabalhadores suados em hora de ponta com as janelas fechadas e obrigava-o a comer carne crua vinte dias exposta ao sol só para ele ver como é bom obrigarem-no a estar enjooado.

é que não se aguenta, porra.

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