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Sabem aquelas pessoas

por M.J., em 30.01.18

que se colam a nós quando vamos a conduzir, numa rua de dois sentidos, querendo a todo o custo que aceleramos, pressionando ao máximo? Eu sei. E esse tipo de atitudes tem em mim o efeito contrário: abrando. Abrando tanto que, um dia destes, dei comigo a fazer pressão a mim própria para acelerar. Com gestos e tudo.

Há teimosos. Do contra. E eu.

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banalidades

por M.J., em 29.01.18

o facto de hoje ter amanhecido soalheiro fez-me sentir, contrariamente ao expectável, um pouco menos melancólica, pessimista, chateada com a vida em geral e sem a aura negra que me acompanhou grande parte de janeiro. 

tomei o pequeno almoço com vista para a planta que uma das pessoas que mais amo no mundo me deu no natal.

o sol entrava a jorros pela cozinha e inundava de luz o chão e as paredes, as plantas e as chávenas, que pendurei de jeito pouco artístico.

estendi os pés em direcção à janela e fui mordiscando torradas enquanto continuava na leitura do terceiro livro deste ano.

 

quando fui à varanda, ainda de robe, as plantas dançavam nos vasos, a roupa bailava no estendal e o vento revolveu-me os cabelos.

é segunda feira, há um cheiro a novo no ar.

mas tenho saudades do ar da praia, das caminhadas no paredão, dos miados das gaivotas. tenho saudades da pastelaria do bairro, das cadeiras e das mesas alinhadas pela calçada e os velhos que se reuniam todas as manhãs em conversas infindáveis. tenho saudades do cão que aditou o dono e que fazia uma ronda matinal pelo bairro. tenho saudades da árvore que entrava quase toda pela janela da sala, mesmo em frente à varanda, os raios de sol que batiam no chão fazendo desenhos. tenho saudades das pessoas que faziam parte dos meus dias. tenho saudades da cidade e do que deixamos, mesmo aqui ao lado, como se estes três anos tivessem sido num país distante, longe de tudo, ainda que possamos, inacreditavelmente estar longe de tudo mesmo a poucos quilómetros. 

e agora que é certo voltarmos, e antevejo já os miados das gaivotas, o mar no inverno, o vento agreste, as glicinias floridas, os lanches ao fim da tarde, sinto saudades da melancolia das manhãs aqui, da vista sobre os cedros, das luzes, do cantar das rolas, da ausência de barulho, da louca que passeia os cães gritando pela rua. 

 

a minha vida é um corropio de mudanças banais.

pequenitas.

sem grandes coisas.

sem nada que se veja ou diga.

e no meio desse nada - que faria rir às gargalhadas amigos que passeiam pelo mundo e habitam cidades no outro lado do planeta como quem vive na aldeia onde nasceu - há uma sensação de tragédia grega que impregno a tudo, como um cheiro a bafio e mofo, a naftalina e a medo.

 

só estou bem onde não estou. 

e não é apenas um desabafo.

é uma constatação. uma certeza. um mantra que me guia nos caminhos.

é tão ridículo ser eu. 

 

 

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oh vai ver ali:

passa a morte

por M.J., em 23.01.18

quando eu era miúda - e fazia todas as manhãs e tardes viagens entre a serra, da escola para casa e de casa para a escola, havia um estranho jogo entre nós.

não sei como nasceu ou se desenvolveu entre miúdos, uns mais velhos do que outros, mas a morbidez não afastava o que se tornou tradição:

sempre que um de nós via um carro funerário, uma espécie de caixão com rodas num negro imponente, quebrado uma vez ou outra com umas flores atrás, pegava de um balanço de mão e dando um valente palmada na pessoa do lado dizia

passa a morte,

pronunciado assim, num sorriso rasgado de quem acabou de ter  um motivo para sacudir pequenas vinganças ou maldades. 

passa a morte,

aliado a uma espécie de dor, uma chapada bem dada, no companheiro do lado, um calduço no da frente, uma palmada no de trás, 

passa a morte,

e nós passávamo-la, mais doloridos pelo ritual das lamparinas, do que conscientes da brutalidade daquilo que dizíamos. 

 

o passa a morte acompanhou-me 8 anos de escolaridade obrigatória em que andei de autocarro.

é certo que nos últimos anos, já demasiado graúda para dar confiança a tal estupidez, a morte passava por mim mas não me batia, na certeza de que as minhas lambadas seriam mais fortes do que as outras.

 

lembrei-me do passa a morte um dia destes quando, numa tarde de trabalho passava os olhos pelo facebook, no descanso do lanche, e vi uma fotografia de alguém que conhecia legendada com descansa em paz.

o meu espanto foi tão grande que, posso garantir, gelei, não acreditei, tive um espasmo de choque.

ali estava ela, como da última vez que a vira, uns meses antes, as duas à entrada a falar, na espera do dia de trabalho que ia começar.

ali estava ela.

o mesmo cabelo, os mesmos olhos muito abertos, um sorriso rasgado, a mania de me tocar no braço esquerdo quando queria dizer algo e chamava a minha atenção.

ali estava ela e com ela já não estava a promessa que fizemos quando me vim embora, meses antes,

tomamos um café tarda nada, ouviste?

fez-me prometer enquanto me passava para a mão um saquinho branco, que fez em croché, repleto de um cheiro a alfazema,

olha não te vás esquecer,

relembrou-me e eu que sim, que não ia, que íamos tomar cafés, há pessoas que não podemos perder na sorte que as foi encontrar.

 

esta promessa foi em março de 2017.

depois o meu mundo alterou outra vez e aprendi a gerir coisas que antes não gerira.

os dias tornaram-se pequenos e a dimensão das horas alterou-se.

por isso, o café passou um mês, dois, três.

deixou de estar nas listas dos pendentes.

logo deixamos de trocar mensagens.

às vezes abria a gaveta da secretária e encontrava o saquinho delicado a cheirar em croché. nessas alturas dizia,

tenho de ligar à margarida.

tenho.

devia.

era bom.

e se. 

mas nunca liguei. nunca marquei. 

o café a escaldar, as mãos frias na chávena, a colher a mexer o açúcar pelas mãos magras dela não chegou. 

 

e por isso eu não soube do cancro que a começou a comer, nas entranhas, com uma malvadez demoníaca.

e por isso eu não soube que perdeu o cabelo, que perdeu as cores e deixou de fazer croché.

e por isso eu não soube que perdeu esperanças e que perdeu a vida.

 

só soube quando, numa espécie de passa a morte, a vi sorridente quando já não sorria.

foi há dois meses.

e não há um dia, ridiculamente, na azáfama que são os meus dias, na sensação de que as coisas começam a fugir ao meu controlo, no medo de que deixo de conseguir harmonizar vertentes, que não me lembre dela, as duas em pé ao sol de novembro, episódios contados, a mão dela no meu braço esquerdo e a promessa final que não cumpri.

 

passa a morte, 

dizia-me alguém no autocarro.

passei foi a vida.

 

puta que pariu.

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com muita força e não podemos mesmo rir?

 

imaginem um senhor a dizer, constantemente, "gajo" num depoimento em Tribunal, com a mesma naturalidade com que diz pá, merdas, pantanas, que se lixe, e afins, imaginem isso e imaginem a cara de riso dos advogados, sempre que o homem era chamado à atenção e não percebia porquê. 

 

há quem diga caralho com a mesma naturalidade com que diz pão. 

e tal como diria o ferreiro na minha terra:

pois oh senhor padre, o mal está em mim que digo sem pensar, ou em si, que pensa no mal das coisas que digo bem?

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já não posso mais

por M.J., em 18.01.18

com os beijinhos e os abraços nossos.

 

gente!

mas as pessoas quando casam e têm filhos perdem a individualidade e transformam-se em quatro ou cinco?

como é que isso dos beijinhos nossos funciona?

há uma votação do agregado e elegem um representante que espalha beijinhos nossos pelos amigos, familiares e afins? 

e vão revezando-se ou é sempre o mesmo?

e há possibilidade de os beijinhos nossos serem dados a pessoas que um dos nossos não acha piada?

e se eu preferir que os beijinhos nossos sejam dados por alguém que não os está a dar?

 

estas dúvidas acerca do funcionamento da humanidade matam-me.

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disto do #metoo

por M.J., em 17.01.18

todos os dias surgem "desabafos" de mulheres que admitem agora terem sido assediadas sexualmente.

há uns casos mais graves do que outros.

há quem diga ter sido importunada, na sua vida séria e pacata por um piropo menos bonito, e há quem afirme ter sido violada, abusada contra sua própria vontade.

as duas situações incomodam-me.

incomoda-me a ideia de um homem sentir que pode, de alguma forma, assediar uma mulher pelo simples facto de ela ser mulher e, evidentemente, alguém ser coagido, obrigado a fazer o que não quer.

ponto assente.

 

o que também me começa a incomodar é a maneira como esses abusos e assédios são desabafados.

que as redes sociais são os novos psicólogos, padres, terapeutas, mães, amigos e família, em quem se deposita medos, anseios, dúvidas e traumas, enfim, não é novidade.

todos nós vemos - ou fazemos - coisas idênticas, pequenos desabafos, pequenas tristezas, pequenas histórias do nosso dia-a-dia.

é uma forma simples de nos sentirmos acompanhados, compreendidos e tudo e tudo.

certo.

a questão é que há desabafos e desabafos. 

começa a ser - e não digo "perdoem-me a expressão" - ridícula a forma como estas coisas vêm a público:

numa enxurrada diária de desabafos, de mulheres a levantar a mão e confessar, muito casualmente como quem foi ao pão e comprou branco em vez de integral, "olha eu também". e no meio desses desabafos de redes sociais, as coisas perdem - inevitavelmente - a dimensão real do que são.

deixa de ser visto com o horror que é; com  a indignação que deve gerar; com as medidas que devem ser tomadas; e transforma-se num enorme carnaval até gerar apatia e até ridicularização: "o quê? mais uma? esta também? oh!"

é o "oh, pois claro" que surge.

e - sinceramente, se pensarmos bem - percebe-se que surja (o que é diferente de aceitar e compreender). 

 

as pessoas são de ondas, de modas, de rebanhos.

faz sentido.

e não, não enganemos: somos todos assim. mesmo aqueles de nós que juram - com os pés bem juntos e sem figas - ser diferentes.

não há ovelhas negras, não há pessoas únicas. somos todos moldados do mesmo barro, aderimos todos ao mesmo, seguimos todos o tudo. é normal. faz parte de nós enquanto humanos. mas isso não invalida que não pensemos, de vez em quando, nos actos tomados. 

se é este o momento certo para desenterrar coisas - que nunca deviam ter sido enterradas - e desabafá-las? sei lá! os momentos certos são aqueles em que temos coragem e conseguimos fazer algo. portanto, se há coragem agora que não houve outrora, que assim seja.

o que não faz sentido é que essa coragem - assemelhada a uma coragem líquida passageira - seja transformada em actos nas redes sociais. que essa coragem, tão válida, se assemelhe a uma necessidade de mostrar ao mundo todo o sofrimento, transformado numa espécie de bandeira, numa espécie de - volto a dizer, não me perdoem a expressão - orgulho em pertencer também às vítimas.

o que parece, nesta enxurrada diária de "olha, eu também"... é uma necessidade de pertencer. 

uma necessidade de afirmar, já que estamos nisto, "olhem, eu também pertenci a isso".

 

se pertenceram... é muito mau.

é muito triste.

é muito traumático.

e há sítios onde esses desabafos devem ser tidos. e há instâncias a que se deve recorrer para que não aconteçam mais. as redes sociais não são esses sítios. as redes sociais desvirtualizam, empobrecem e ridicularizam uma situação que é tão triste. e uma causa que é tão nobre.

 

por este andar, não me espanta nada que, daqui a uns dias, o josé castelo branco, de saltos, cabelo empoleirado e a bety ao lado, transformada em pochete, venha escrever também, com as mãos ao alto, " eu também, eu também", na procura quem sabe, de entrar num novo reality show, onde as mulheres são vistas como putas e os homens como machos. 

#metoo?

depende.

tirem-lhe o cardinal e usem as palavras onde devem ser usadas.

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sabem o engraçado?

por M.J., em 15.01.18

é que as mesmas mães que pespegam fotos dos filhos em blogs, ora com saias, ora com fraldas, com tutus e no penico;

as mesmas que explanam birras, trombas, episódios e coisas domésticas que só às famílias dizem respeito;

as mesmas que ganham cremes para as trombas e trapos a fazer da vida de quem pariram um big brother de mau gosto...

 

são as mesmas que condenam um programa da sic por exposição infantil.

pelas vossas alminhas, tenham dó.

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amor

por M.J., em 15.01.18

na correria dos dias perco, às vezes, a dimensão do que importa.

não é de propósito.

há sempre tanta coisa para fazer, coisitas miúdas em que pensar, listas intermináveis de tarefas que aumentam, por mais que se façam.

penso em prazos, objectivos, dinheiro e concretizações.

decido menus semanais, pondero se a senhora que por aqui passa, a limpar isto e aquilo, deve vir hoje, amanhã ou no dia a seguir.

planeio dias aqui e ali, sem esquecer este e aquele. 

as horas passam numa corrente interminável de coisas e eu esqueço, sem ser por mal, a dimensão do que importa.

e ponho debaixo do tapete aquilo que pus em exposição em tempos. 

 

não controlo.

perco a paciência com pequenas coisas.

digo muitas vezes o mesmo:

sabes o trabalho que dá todas as manhãs apanhar uma manta espalhada? arrumar uma chávenas esquecida? sabes o tempo que perco a pensar nas tarefas de casa, tão miudas e ainda assim persistentes?

digo-te vezes sem conta, com medo que te esqueças e que não percebas que o meu tempo escasseia e tem o mesmo valor do que o teu.

digo-te numa espécie de queixume, no medo que não te lembres do contributo de um e outro para a empreitada que somos nós.

digo-te e acabo de dizer e percebo que é parvo.

 

tu não me lembras, todos os dias, das horas de madrugada a que te levantas.

da viagem que fazes, faça chuva ou sol, para não termos de nos mudar para um sítio que não quero.

não me lembras do tempo que não tens para fazer o que mais gostas, empenhado em tanto trabalho para conquistarmos o que planeamos os dois.

tu não me lembras, quando olhas para mim, que me desleixei e estou mais gorda do que queria.

não me apontas flacidez ou celulite.

nunca me dizes podias ter ido fazer exercício, ou tens a certeza que queres comer isso?

nunca olhaste para mim e transpareceste qualquer outra coisa que não "és minha mulher e tenho orgulho nisso".

e mesmo quando me sinto miserável, pequena, feia e envergonhada tu tocas em mim como se eu passasse em lingerie numa passarela, com asas de anjo e nome conhecido.

 

tu nunca fizeste outra coisa se não amar-me.

e às vezes, nos meus queixumes, implicâncias, azedumes e coisinhas, tenho medo de não te mostrar o mesmo. 

tenho medo que um dia, qualquer que seja, estejas tão cansado, tão esgotado, que penses que não te amo assim.

dessa mesma forma que tu fazes:

absolutamente desinteressada, sem condicionantes, sem mudanças, sem alterações. numa dimensão absoluta de altruísmo. 

 

nunca te esqueças:

só principiei realmente a viver no dia em que te amei. 

e desde então isso nunca mais se alterou. 

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"é assim".

um xi apertado para vós.

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e de tudo o que passo neste momento (oh, se soubessem e eu vos pudesse contar) gostaria apenas de dizer que ontem fui às compras, num dia particularmente frio, chuvoso e cinzento e senti - como nunca havia sentido - o cheiro mais intenso de falta de banho.

não era cheiro a cocó, a suor, a azedo, a morto, a acabado. 

era uma mistura pujante de tudo isso, num fedum que inundava um raio bastante alargado de um senhor que, atrás da esposa, mancava e resmungava "despacha-te lá com isso".

juro que já espero tudo na vida... mas deparar-me com o pior cheiro jamais sentido, num dia chuvoso, num supermercado quase vazio, enquanto esperava por peixe amanhado ainda não tinha previsto. 

 

não trouxe o peixe.

lancei um olhar de pena à senhora da peixaria.

e contive-me muito para não arrastar o senhor até cá fora, ao temporal, deixando-o a apanhar aguinha, que até era de graça, até perder tal fedor.

 

esclareçam-me:

o pessoal perde as cheiradeiras?

habitua-se ao próprio cheiro?

transforma um odor a cocó em rosas?

 

o que é que acontece?

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