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feitios

por M.J., em 06.12.17

tenho um feitio complicado. sei disso e percebo-o com uma noção mais clara à medida que o tempo avança e eu cresço. 

deixei já de assumir que é resultado apenas dos genes que habitam em mim.

descendo de várias pessoas com feitios muito difíceis, intrincados, genes tinhosos mesmo, que se colam a quem somos por sermos nós.

pessoas teimosas, intransigentes, com laivos de arrogância que, numa junção extraordinária culminaram em mim. 

 

sei disso.

desse meu feito ranhoso, intransigente, arrogante, de máscara empinada e nariz no ar a mascarar uma série de medos.

mas orgulho-me de o conseguir ir moldando com o continuar da vida. 

 

aprendi a dominar vários aspectos, como quem ensina um potro novo a comportar-se.

não respondo tudo o que em aparece à ponta da língua e dos dedos.

respiro fundo e deixo ficar, numa marinada onde não entram coentros até ao dia seguinte.

analiso o meu comportamento e aprendo a humildade de pedir desculpa. pedir desculpa a sério. sem coisinhas, rolares de olhos ou atirado numa espécie de pronto, pedi desculpa, mas continuo a ter razão.

aprendi à minha custa que, tendo em conta o meu feitio de merda, o mais provável é ser eu a culpada pelas situações menos agradáveis. mesmo que, enfim, a culpa seja algo estranho, visto que as perspectivas de um dado acontecimento são vistas de acordo com várias personalidades e cada um consiga moldá-las de acordo com o que é.

 

aprendi muito acerca do meu feitio e, consequentemente, da maneira como lidar com ele.

às vezes estou a dizer algo, a pensar em algo e percebo, numa espécie de constatação negra, que são coisas sem sentido, sem qualquer significado, exacerbadas por aquilo que menos gosto em mim e que preciso de dominar. 

 

tenho um feitio de merda.

a sério.

mas aprendi tanto acerca dele que às vezes nem me reconheço já, nos laivos que vêm à tona.

consigo moderar o sarcasmo. não provocar pelo simples prazer de provocar. entender que a percepção do outro acerca de determinada situação é absolutamente diferente do minha e que, na maior parte das vezes, nada do que diga ou faça vai alterar esse mesmo entendimento.

aprendi a aceitar o comportamento deste ou daquele como inevitabilidades, mesmo que este ou aquele comportamento me deixem comichão no cérebro e me façam sentir vontade de vomitar.

aprendi a dominar os rolares de olhos e a língua afiada na ironia constante.

 

mas não nos enganemos. aprender a não demonstrar não é a mesma coisa que aprender a não sentir. 

a minha interacção com o outro vai ser sempre, sei disso, moldada pela inabilidade.

sou impaciente. intransigente. tinhosa. tenho laivos de ingenuidade acerca de algumas coisas e sou facilmente enrolada em certas situações, numa contradição com a desconfiança noutras.

e sou péssima a avaliar pessoas no primeiro embate, acreditando sempre não terem nada a ver comigo, repelindo-as pelas características que acho não gostar e esquecendo-me que - tal, como eu - são um conjunto de coisas de difícil avaliação em dez minutos. 

 

o meu feitio de merda fez-me perder muitas e boa pessoas. que é como quem diz, eu perdi muitas e boas pessoas. gente extraordinária que me secou lágrimas, limpou tristezas, atenuou dores e ensinou a ser isto que sou, mesmo que isto que sou não seja grande coisa.

na maior parte das vezes lamento isso. lamento que para atingir alguns patamares de crescimento vá perdendo gente.

é que há pessoas tão valiosas que é incompreensível que as ponhamos para trás, na necessidade de crescermos.

 

e concluo, tristemente, que pode dar-se o caso de quando sentir que já cresci tudo... não haja ninguém para dar conta disso. 

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numa relação marido/mulher, namorado/namorada, marido/marido, mulher/mulher, enfim, perceberam a coisa, o que é mais importante: a amizade ou a paixão?

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papéis

por M.J., em 05.12.17

às vezes, no meio do rebuliço dos minutos que voam na secretária, encontro pessoas mais velhas que carregam papéis como quem carrega tesouros.

já quase não imprimo nada, a não ser que seja estritamente necessário.

habituei-me a ler nos ecrãs e tirando os livros físicos, que vou coleccionando e preferindo carregar nas mãos, deixei de acumular papeis. 

 

depois percebo a magia da hipnose do trato do papel por alguma pessoa.

chegam-me com eles dentro de pastas de plástico, que se encarquillham nas mãos enrugadas e secas.

pegam nas folhas com cuidados, tirando-as das micas com a ponta dos dedos grossas, pondo um deles na boca, na procura de humidade.

estendem os documentos em cima da mesa.

às vezes sublinham com cores diferentes passagens importantes. e dizem sempre que aquilo é uma fotocópia, que se pode riscar à vontade. mesmo que o à vontade sejam riscos curtinhos em palavras chave.

 

depositam nos papéis toda a fé do mundo.

são documentos num tempo em que a palavra não serve.

são assinaturas que comprovam momentos, factos e decisões.

e é difícil explicar a validade deles quando foram tratados com tanta consideração. quando são retiradas as folhas, uma a uma com uma delicadeza rústica e alinhados à espera de fazerem justiça. 

 

pegam nos papeis e têm neles convicção.

separam este e aquele por momentos e datas.

alinham-nos e batem-nos na mesa para ficarem certinhos. dividem-nos nas respectivas pastas. nunca deixam os originais. 

 

alguns papéis têm, para algumas pessoas, o valor sério da fé.

mesmo que uns e outros, fé e papéis, não tenham valor algum. 

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pessoas que escrevem "k"

por M.J., em 04.12.17

quando querem dizer "que".

 

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parece que afinal não vou morrer

por M.J., em 04.12.17

de um mal desconhecido que me obrigou a repetir a colheita de sangue.

em contrapartida é provável que morra de frio.

 

credo, abrenuncio!

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1. esperar que ela faça colheita de sangue para análise;

2. uns três dias depois telefonar a pedir para passar por lá para retirar mais sangue;

3. motivo: necessário repetir o exame;

4. algo relacionado com o fígado.

 

pronto, é isto. uma pessoa não bebe e mesmo assim pode, quem sabe, ter uma cirrose.

ou hepatite.

ou cancro.

ou-outra-doença-qualquer-cujo-nome-não-sei-mas-que-me-vai-matar.

 

espero que dê para passar o natal.

 

oh foda-se!

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escrevo

por M.J., em 30.11.17

o que mais prazer me dá, nas palavras alinhadas em textos, é a sensação de juntar às coisitas do dia uma colher de mel, muito doce. 

sou uma sentimentalona, descobri isso com o tempo, mesmo quando mascarava emoções com a rudeza da arrogância.

sou uma sentimentalona e percebo isso nas banalidades da vida.

na lágrima que escorre fácil quando recebo uma palavra mais doce, na sensação de enlevação quando faço tocar o globo de neve que ele me deu, logo no inicio do namoro e uma música enche o ar de recordações de mãos dadas, gargalhadas, manhãs na cama, bolos de chocolate acabados de fazer. sou uma sentimentalona quando recebo pelo correio pedaços de carinho e lembranças de pessoas extraordinárias. há uma lágrima fácil no vídeo com música pirosa que resgata um cão ou um desabamento da alma quando um idoso chora na tv porque perdeu a casa que era a sua existência.

 

a possibilidade de escrever a vida como a vejo faz-me viver também.

vivo escrevendo.

avivo recordações do que acabei de assistir.

encontro definições do que senti.

o vento que vai na rua transforma-se em farripas da manhã, envoltas na face com o cheiro do frio e da serra.

o café que emborquei de um trago passa a ser o conforto da certeza das coisas simples.

um chá quente é também a alquimia de um cheiro e das mãos geladas contra a chávena. 

o que é, é maior, mais doce, mais vivido. 

 

não tenho dúvidas que é isso que me faz viver. 

quando o avô morreu, numa manhã fria como esta, depois de confortar a avó, ver a mamã em dor, correr pelo dia com a sensação de inacreditável incapacidade de percepção, não chorei.

vi as flores depositadas na campa, racionalizei o depois.

percebi a dor que circulava nos caminhos e permaneci.

segui o cortejo embutida num choque sem quase sentir.

fiquei.

quando me sentei depois, e escrevi o que me lembrava, na possibilidade de a mente ser livre, desabei num pranto do que realmente acontecera:

eu sentia finalmente.

 

escrever, no meu caso, ultrapassa a barreira de juntar palavras.

escrever transforma-me e, ao mesmo tempo, constrói-me.

descubro quem sou, o que sinto, para onde vou e de onde venho num raciocínio que me desce num lampejo aos dedos.

há dezenas de blocos de notas espalhados pela casa - muitos oferecidos pela maria e pela magda - que vou rabiscando em frases soltas, totalmente imperceptíveis a quem as ler, tal como imperceptíveis são os pensamentos desgrenhados que me definem.

 

escrevo como quem vive. 

vivo como quem escreve.

e quando um dia o mundo acabar e eu me for numa manhã fria, o vento a correr pela vida trazendo a sensação de outrora, saberei que descobri o que muito poucos descobrem numa existência incompleta:

a sensação de absoluta entrega às palavras. a certeza de total liberdade no que sou através do que escrevo.

mesmo que o que escrevo não valha um pirolito furado.  

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mas ainda nenhum jornalista me quis entrevistar.

 

vá, perguntem coisas. 

tenham curiosidade.

questionem cenas.

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quero agradecer ao meu champô que, esta manhã não entrou para os olhos e fez com que eu conseguisse ver para escrever, na alimentação deste tasco.

quero agradecer ao meu teclado, que apesar de ter uma ou duas migalhas que não saem e uma mancha de café num canto, continua fiel na sua cruzada. o teclado é fiel mesmo que eu não publicite a marca dele.

quero agradecer à minha cadeira. foi cara mas dá bom suporte lombar e faz com que o meu escritório pareça o ambiente de um blog catita. 

e ao rato. também quero agradecer ao rato que ajuda a não aumentar as dores no ombro esquerdo (um ombro não fit, esclarecido seja).

quero agradecer à minha professora do primeiro ano que me deu uma lamparina quando eu estava a ler um livro sobre patinhos em vez de fazer as contas que ela tinha no quadro. ensinou-me que por mais que goste de ler - e escrever - os números são mais importantes e é por isso que os bons blogs recebem massa (literalmente há quem receba quilos de massa) em troca de elogios a marcas. 

quero agradecer a vocês todos por lerem isto... ainda que ninguém consiga dar duas razões seguidas para o efeito. acredito que seja como aqueles acidentes de automóvel que toda a gente pára ver mas fecha os olhos na parte do sangue.

quero agradecer à magda por num momento de inspiração se ter lembrado da iniciativa, totalmente compreendida por toda a gente. e dizer que apesar do globo que me é agora entregue não ser de ouro vou colocá-lo em cima da lareira ao pé das fotografias do casamento.

- perdão, dizem-me que não há globo nenhum pelo que reformulo a última frase:

quero agradecer à magda por me fazer escrever um discurso para ganhar uma coisa que não tem prémio. nunca o "importante é participar teve tanto sentido".

quero agradecer a quem me nomeou e aconselhar a ter cuidado com a bebida. 

quero agradecer a quem votou em mim e dizer que, se eu pudesse escolher, diria antes para votarem nelas as duas, no que diz respeito à minha categoria:

são incomensuravelmente melhores do que eu.

sobretudo naquela coisa que não se vê na escrita dos blogs mas transparece a quem o quiser ver:

melhores pessoas.

 

os sapos do ano são uma brincadeira da magda que demonstram o quanto as pessoas gostam de sentir que aquilo que escrevem é importante para quem lê. em causa está um prémio que não existe e, mesmo assim, todos os nomeados sentiram uma ligeira onda de calor e um sorriso pela lembrança.

os blogs que têm gente dentro são os melhores.

a maria, a gaffe e a magda têm gente do tamanho de mil homens em tudo o que escrevem.

mesmo que não haja prémio dêem-lhes o prémio de reconhecer as pessoas que são na escrita que fazem.

 

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oh vai ver ali:

a grande dúvida

por M.J., em 28.11.17

acontece-me quase sempre no primeiro contacto, apesar de, exteriormente, conseguir manter um ar civilizado:

saco de dois olhares ferozes internos e construo na minha mente a imagem da pessoa.

as pessoas como eu são aptas a olhar os outros com os olhos que se olham a si próprias. e quando há a tendência de desvalorizar quem somos acabamos por fazer, inevitavelmente, o mesmo ao Outro. 

escusado será dizer que nunca acerto e as minhas considerações são quase sempre afastadas a pontapés pela simplicidade, humanidade, sorrisos e afins que me são entregues.

 

creio que é o grande castigo do universo para com a minha pessoa:

provar-me, constantemente, que estou errada.

fazer-me bater com a cabeça nas paredes, independentemente dos altos que já la estejam por outros embates, fazendo-me perceber que as minhas primeiras avaliações são falsas, mesquinhas e que não vale a pena: estou errada. o Outro não é feito à minha semelhança e, como tal, é muito melhor do que eu.

 

o que me assusta nesse primeiro contacto é, também, a maneira como às vezes sou tratada.

como se alguém visse nas minhas bochechas, no meu ar furioso e embatucado, o ar de uma miúda pequenita a quem recusaram um gelado e está amuada a um canto.

juro, e não tenho por que mentir, que são mais as pessoas que, sem me conhecer, me tratam pelo diminutivo do nome que ao contrário.

uma antiga senhoria minha dizia que tenho um ar de menina aflita. 

será esse meu ar que atrai a generosidade daqueles que me rodeiam?

 

porque reparem, se a vida não foi em tempos do mais generoso possível comigo, foi-me compensando - apesar de quem sou - com a entrega de pessoas extraordinárias que me rodeiam os dias.

e nessa quantidade de gente que vou recebendo, uns a ficar, outros a partir, eu sou sempre aquela dos filmes que destoa.

a ovelha ranhosa - ou ronhosa? - com o feitio de merda, que engole os pensamentos mais mesquinhos sempre que recebe, em troca, a generosidade e um diminutivo no nome.

o meu ar de menina aflita reflecte quem sou.

e as meninas aflitas também são, às vezes, meninas más, postas de castigo com razão, por puxarem cabelos no recreio.

resta saber porque permanecem os outros, ao lado delas, mesmo quando estão viradas contra a parede, enquanto o dia prossegue no intervalo.

 

 

 

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