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há manhãs que mais parecem meses

por M.J., em 07.03.18

acordo às sete da manhã com a notícia de um familiar muito doente.

ainda meio a dormir vou à casa de banho e percebo que tenho o olho direito todo vermelho e coisas menos bonitas a sair dele.

lavo-o com soro enquanto ouço o rapaz em silêncios longos, sem saber o que dizer a quem lhe dá más noticias.

lembro-me que hoje é o último dia de entrega de um trabalho enorme que não posso não fazer.

sento-me com o olho direito meio fechado, em frente ao pc, tentando a custo fazer o que preciso.

o rapaz sai para trabalhar.

liga-me uma das pessoas mais importantes da minha vida a contar uma situação menos boa.

esqueço do trabalho, do familiar doente e do olho e só me apetece pegar no carro e ir a correr ter com ela.

a meio desse telefonema telefona o rapaz pedindo que ligue ao familiar.

despeço-me da amiga, despeço-me do rapaz, ligo ao familiar.

fico sem bateria no telemóvel a meio.

ponho o telemóvel à carga.

falo com o familiar.

sento-me para trabalhar.

liga-me a DECO porque tive a infeliz ideia de mandar vir um guia grátis para animais de companhia (que eu não tenho nem vou ter) e agora querem porque querem que assine duas revistas.

não atendo a DECO.

lembro-me do trabalho.

O rapaz liga-me para eu telefonar à ambulância que sou mais expedita nessas coisas.

ligo à ambulância sem saber se devo dizer que alguém me venha buscar também que o meu olho está mais vermelho ainda. 

lavo o olho.

começo a trabalhar.

tocam à campainha: dois senhores do jeová querem saber se me podem deixar um convite para ir festejar (terei ouvido bem?) a morte de cristo no dia 31 de março.

pergunto se o convite é em papel ou palavras. quando me respondem que é um papel indico a caixa de correio.

sento-me, finalmente, para trabalhar com o olho meio tapado por uma cena de algodão que fiz às três pancadas.

não me consigo concentrar.

liga-me novamente a DECO.

penso: tenho de anotar isto.

escrevo aqui.

continuo com familiar doente, olho doente, a DECO a tentar ligar, o trabalho por fazer e um convite para um funeral na caixa de correio.

tudo antes das onze da manhã.

 

podia ser caricato se não fosse - juro que é - totalmente verdade.

 

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bom dia

por M.J., em 06.03.18

 

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canção sem

por M.J., em 05.03.18

não há plágios minha gente. só coincidências:

(chegamos a um ponto em que não há mais melodias nas melodias do mundo que o festival da canção tenha que ter, necessariamente, estas dúvidas?)

kate havnevik: 12 pontos.

 

 

 

 

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boneca

por M.J., em 02.03.18

acordei mais cedo do que o habitual.

a varanda tem galhos secos, folhas verdes caídas (partidas?) das plantas e uma flor da orquídea no chão, morta pelo vento.

tirei um café com a porta (janela?) da varanda aberta. o odor amargo espalhou-se pela cozinha, logo despedaçado pelo vento que entrava a jorros.

bebi-o na varanda, a ver os carros passarem em baixo e a dança das árvores em frente. 

 

quando tinha onze anos tive hepatite a.

uma daquelas doenças que, segundo disse o médico, atacam muito as crianças (ou atacavam?).

a avó receitou, a par dos medicamentos do médico, um chá muito bom, muito conhecido, que fazia milagres. a mamã deu-me os medicamentos e o chá de marroio, que eu vertia num vazo de uma planta, quando ela não estava a olhar, de tão amargo que era.

certo é que a planta ficou viçosa, por isso quem sabe, talvez resultasse.

durante o período da doença fui obrigada a ficar de repouso, na cama, durante um mês.

eu tinha onze anos e entrado no ensino básico fazia muito pouquinho tempo. eram dias de novidade:

o apanhar do autocarro de manhã cedo, o conhecer novas caras, professores e todo um ensino diferente. estava a gostar, sobretudo da biblioteca onde os livros eram imensos, mais do que alguma vez eu tivera à disposição, pelo que aquele confinamento provocou-me uma tristeza imensa.

a par de outras banalidades e tragédias domésticas que não vale a pena dissecar.

 

um dia à tarde, cansada da reclusão, num quarto onde havia uma tv a preto e branco, a única lá de casa levada para o meu quarto pela mamã (a única maneira de mudar de um canal para o outro era rodando um botão no aparelho); a fátima lopes à tarde, na sic, com um programa onde entrevistava pessoas que contavam coisas que eu não percebia; todos os meus livros lidos e relidos até à exaustão; pedi uma boneca à mamã.

nunca fui criança de grande bonecada. tirando a vontade óbvia de cortar o cabelo todo às que me eram oferecidas e questionar-me os motivos que levavam a que não tivessem pipi, nunca achei muita graça. 

naquele dia, porém, apeteceu-me. 

 

na aldeia não havia sítio onde comprar bonecas.

a mamã percorreu todas as lojas: as mercearias onde costumava ir, a loja de lembranças que uma senhora vendia, no centro da aldeia, e até a loja de roupas.

não havia.

não desistindo porém, de concretizar o meu pedido, encontrou uma na loja das lembranças, demasiado cara, de porcelana, com uns cabelos encaracolados e um vestido de veludo com uma gola de renda. era, efectivamente, demasiado cara, num mercado onde a lei da oferta e da procura regia-se pelas necessidades mais básicas, onde não havia olx, chineses ou promoções do continente.

cara como um roubo, no dinheiro que poderia fazer falta.

a mamã, no entanto, comprou a boneca e ofereceu-ma nessa tarde, uma alegria imensa, escondendo o cansaço de percorrer os sítios na procura do brinquedo e o dinheiro a mais gasto.

não era um brinquedo.

servia para estar dentro de uma caixa, fechada, para ser apreciada:

tinha umas pestanas falsas demasiado longas, um cabelo encaracolado demasiado sedoso e um vestido com tanta renda e veludo que lhe dava um ar de opulência decadente.

 

eu estava doente, em reclusão, em confinamento.

lembrava-me da escola, dos meus colegas, da aventura do autocarro.

e ali estava, filha única, fechada num quarto, sem grande entretém.

e quando quisera uma boneca de plástico, a quem pudesse cortar os cabelos e fazer vestidos de panos de louça velhos... era-me oferecido uma boneca de admirar e não de brincar.

disse-o à mamã. não por estas palavras, porque não sabemos explicar o que sentimos desta forma aos onze anos, mas por aquelas que conseguia. 

ela olhou-me.

se sentiu desilusão, tristeza, ingratidão da minha parte, não o demonstrou.

levantou-se, tirou a boneca da caixa, foi à cozinha buscar uma tesoura e dois panos de louça que dispôs em cima da minha cama. trouxe também uma pequena bacia com água e sabonete. e depois, para meu espanto despiu a boneca, mergulhou-a na bacia e cortou-lhe uma madeixa de cabelo.

e brincamos as duas, o resto da tarde, com a desgraçada da boneca pintada na cara com marcadores, o cabelo destruído, envolvida em trapos velhos com maças e bules de chá desenhados. 

 

era uma boneca cara, ali estragada numa tarde para que eu sorrisse.

 

lembrei-me disso de manhã, na varanda, perante a dança das árvores e desatei a chorar.

a medicação deixa-me frágil, no bombardeamento das hormonas.

há um aperto constante na garganta que me consome e inúmeros episódios de outrora circulam-me no cérebro, numa espécie de castigo, em recordações boas e más, que eu julgara extintas. 

fechei a porta (ou janela?), pousei a chávena de café e telefonei à mamã. 

ainda tão cedo que ela julgou que algo acontecera. 

falamos de banalidades, da chuva, do temporal e dos dias. 

e eu só queria agradecer-lhe pela boneca. 

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e não é que alguma coisa já me espante muito, mas enfim, assim seja.

 

1. as queixas nas redes sociais sobre a chuva atingiram o auge nos últimos dias. que na altura dos incêndios foi um deus me livre até se entende, na novidade da coisa (quéquefoi? foi uma novidade). que o pessoal se abespinhe com queixas doloridas de bradar aos céus porque chove em março quando estamos em seca é coisa, realmente, que não se entende.

a menina molha o pezinho, molha? pode sempre aproveitar, juntar-lhe um sabonete e lavar os cascos que com esse medo de água, enfim...

santa paciência.

 

2. o moço com o nome suis géneris de piçarra (quéquefoi? parece cigarra e não deixa de ter piada) abandonou o festival cansado do drama que foi a acusação de ter plagiado uma música da iurd que, afinal, não era da iurd. as redes sociais incendiaram-se. meio mundo a atacar meio mundo. pois que era, pois que não era. o mais engraçado foi:

  •  o senhor piçarra admitir que a música era tão simplória que qualquer pessoa podia fazer aquilo (abona muito a favor da qualidade da coisa).
  • continuarmos a ser um país tão religioso que passamos à mesma final um moço que canta como o frei hermano da câmara e outro moço que canta uma música da iurd. pelo amor de deus, não me falem que somos intolerantes religiosos. mais. se houvesse uma terceira semi final com o padre borga a cantar "guiado pela mão" ganhava aquilo como quem limpa o rabinho a meninos. 

 

pronto, tinha mais 3 ou 4 coisas mas vou ali queixar-me do frio enquanto como um gelado e passeio de sandálias ao som do "abre os meus olhos" de um pastor da iurd.

amén.

ou amem!

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scott matthews e scott matthew

por M.J., em 27.02.18

a diferença de um "s" a (não) diferenciar genialidades.

 

 

 

 

 

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publicado às 11:02

crescimento

por M.J., em 26.02.18

não é a idade que nos traz maturidade mas as experiências por que somos obrigados a passar.

ou que escolhemos.

ou que nos impomos.

é o vivenciar, o sentir na pele que nos faz sentir empatia pelo Outro, nos faz aumentar a capacidade de percepção de quem nos rodeia e de nós próprios.

evidentemente que a fórmula não é simples.

o rapaz diz muitas vezes que crescer e viver não são sinónimo de aprendizagem e há pessoas que apenas se especializam a aumentar os seus defeitos e a viver na base de crenças que crescem na medida do raciocínio.

estranhamente entendo isso. 

 

quando decidimos que esta era a altura de engravidar (e não, não vamos ficar grávidos) eu não tinha grande empatia por algumas situações de que lia ou tinha conhecimento real.

não nos confundamos.

continuo a não ter por muitíssimas situações. continuo a revirar os olhos quando vejo putos aos gritos no meio do supermercado,

mas os filhos não são putos para sempre

diz-me ele;

continuo a não sentir o mínimo apelo para pegar num bebé ao colo,

mas os filhos só são bebés um ou dois anos,

lembra ele;

continuo a fugir de mulheres que falam da maternidade como se isso fosse a única coisa que lhes serve na vida,

mas ninguém disse que tu tens de ser igual ao outro,

recorda-me ele.

começo no entanto a perceber, ainda que não entendendo a total dimensão da coisa, algumas circunstâncias.

 

uma vez, há uns anos, encontrei um blog de alguém que escrevia para um futuro filho.

era uma mulher que, com graves dificuldades em engravidar, escrevia todos os dias cartas para um bebé que haveria de conceber, explicando-lhe os processos a que se submetia para o efeito.

os textos eram melosos, cheios de floreados e detalhes que achei quase animalescos. do género "querido filho, hoje o papá deixou a sementinha dele dentro de mim e depois eu fiquei à tua espera, com as pernas levantadas, sentindo que era desta. mal posso esperar para te sentir nos meus braços". 

aquilo pareceu-me brutalmente ridículo. não a história da sementinha ou das pernas levantadas. mas sim a questão de alguém se sentir à vontade para expor a um futuro filho - e ao mundo - as práticas sexuais para a concepção.

na altura estava longe de perceber o desespero de alguém que quer engravidar e não consegue. na verdade ainda estou. acho que estarei sempre. depois da ansiedade inicial que foi "olha, queres ver que afinal sou defeituosa?" dei-me conta que isso não provocava em mim o sofrimento atroz que encontrei em mil fóruns, chats, blogs e afins das internets do mundo.

não provoca. há um diagnóstico, um tratamento e os caminhos a seguir. bastante simples, diz a médica de sorriso no rosto. e eu acredito. e mesmo que não acreditasse, depois do choque inicial, percebi que não me causava dores e ansiedades, frustrações e anseios, como os que li e me relatam. 

no entanto, consigo perceber.

estranhamente agora, com o correr da vida, consigo entender a dor, a ansiedade e a frustração de alguém que todos os meses aguarda um coração cheio de esperança desfeito em nada num momento para o outro.

consigo entender, ainda que não o sentindo e como tal não podendo ter total empatia, mulheres que sempre almejando serem mães, têm dificuldades em que isso aconteça.

consigo entender, sim, pela primeira vez.

não reviro os olhos já, com tanta força, como revirava antes a relatos de gravidezes que não ocorrem e mães que falam para uma barriga vazia, para um filho que não existe. 

não o sinto, é certo, sendo eu perita em sentir, mas entendo.

 

o que nos faz amadurecer não é a idade, repito.

são as circunstâncias das vivências a que nos submetemos. 

e é nessas alturas que sinto algo que tão poucas vezes senti: orgulho em mim.

não é bonito de admitir, não é sensato sequer e dá às palavras uma aura de arrogância.

mas não consigo evitar sentir uma satisfação própria por perceber que, ao contrário do expectável, a idade, as vivências, as experiências e os obstáculos não me dão a amargura que me acompanhou o crescimento. não me transformam na pessoa seca e azeda, com menos paciência e incapacidade de perceber o outro.

é o contrário.

e fico tão contente por isso!

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coisas que me tiram do sério

por M.J., em 21.02.18

o país em seca em pleno fevereiro e gente a apregoar estar triste porque vem lá chuva.

 

a sério... curem-se disso.

procurem a iurd ou assim, que com tanto solinho acabam a comer oxigénio, a tomar banhos de terra e beber água do mar, já temperada com o devido sal.

 

tá tudo maluco ou quê?

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juro pelas alminhas

por M.J., em 21.02.18

que se ouço mais alguém aos guinchos, num desafinado irritante, a clamar que é 

"para a vida tooooooooooooooooddddddddddaaaaaaaaa"

lhe espeto com as estatísticas dos divórcios.

 

irra, que não se aguenta tanta gritaria disfarçada de cantoria. 

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há bananas em janeiro

por M.J., em 19.02.18

confesso: sigo o festival da canção.

talvez tenha parado de ver ali nos anos em que a luciana abreu foi de saia esquisita e gritos lancinantes acompanhada de um mocinho de voz grossa, representar-nos.

mas cresci na popularidade do festival, na madrugada do depois do adeus, no filho feito por gosto, no silêncio e tanta gente (a minha preferida de sempre), e etecetera, etecetera.

 

no ano passado apaixonei-me pela música dos manos sobral.

achei mesmo que a inconveniência do moço, a irreverência, aquele transmitir de "que raio estou eu a fazer aqui em vez de fumar umas brocas?" eram refrescantes e acabavam com a piroseira dos anos anteriores.

é claro que o português do fado, fátima e futebol (e agora da kizomba) não gostou. uma nabice, clamaram as vozes, onde já viu, gritou o mundo. ainda se fosse a sabrina e o emanuel!

ou o grande toni, com os seus originais!

não foi e o moço ganhou.

e eu vivi a coisa como um fanático do futebol quando portugal ganhou com os golos do outro (que isso nem vi) e fez o país andar num corropio de felicidade.

 

depois o moço irreverente passou-se um bocadinho da moina.

entendi.

condicionantes de saúde, a irreverência marcante, a vontade de demonstrar genialidade.

soltou o comentário do peido no meio de um espectáculo de solidariedade em que se queria fadinhos e vozes elevadas a deus e portugal levou a peito. eu não fiquei especialmente ofendida (fiquei mais com a ideia do português que adora caridade de sofá) mas achei que aquela imagem de irreverência começava a deixar de ser engraçada e genial e transformava-se numa espécie de... tontice.

o moço é tonto, concluí.

e esqueci o assunto.

 

ontem assisti ao festival da canção enquanto dobrava meias (foi nada. não há aqui tanta meia em casa que permita um serão inteiro delas). 

e em boa verdade... nada de novo. perdi-me até em quatro ou cinco lá pelo meio. 

gente estranha, mais do mesmo, nada de muito interessante. uma fulana relembrou músicas passadas, outra gritou em viva voz, outros, enfim, adiante.

mas falo dos que me lembro:

 

o cid

o cid apareceu como o cid a lembrar fadinhos e almas de povos, perdido num tempo em que o el rei dom sebastião era um hit.

não me interpretem mal. gosto do homem. sério. canto de cor uma data de canções do senhor e, apesar de não me arriscar a ficar na frente dele num concerto sem capa insuflável ou guarda-chuva, acho que há uma certa piada no que ele cantou em tempos.

não no que ele insiste em inventar de novo.

e aqueles lencinhos ao ombro dos guitarristas eram qualquer coisa que a minha avó aplaudiria com gosto. 

 

a anabela

a anabela apareceu vestida de anos noventa de braço no ar, a lembrar que evoluímos mas os gestos atrasados permanecem.

gritou que se desunhou e fiquei à espera de um bailinho ali no meio, com cinco lavadeiras a gritar o malhão.

até gosto do tordo mas aquilo não era coisa que se pudesse aplaudir. 

 

o palma

o palma encontrou o filho há muito, muito, muito tempo perdido.

ponto de ordem nisto: adoro o palma. acho-o absolutamente genial. há músicas dele que são hinos na minha vida. e a de ontem não desiludiu. simples, sem merdinhas, sem tentativas de ser o que não era.

reconhecia-se nela palma do princípio ao fim e creio que seja isso o que o distingue no que compõe: é ele.

o mais interessante foi que quem a cantava poderia ser ele.

a personificação de um e outro. confesso que gostei.

 

o resende

houve uma moça que apareceu vestida de carnaval.

e aqui já se esperava.

depois da onda de aceitação da irreverência e da personagem do ano passado, esperava-se que este ano acontecesse o mesmo.

pois meus senhores, gostei da música.

a moça tinha uma voz magnifica, a canção era linda e não podia ficar alheia ao facto de o resende estar por trás.

sou apreciadora de júlio resende desde há muito e isso influencia o meu gosto por esta moça.

ainda assim, o vestido de carnaval atrasado e a imagem de que andou a brincar com a maquilhagem da mãe era, na minha opinião, dispensável.

não que o festival não seja uma paroleira. mas porque a música merecia melhor.

 

o peu

claro que não se podia dispensar um novo frei hermano a cantar ao senhor dos passos.

ou à senhora da saúde.

por isso, é evidente, ele apareceu em peu qualquer coisa.

sim, um dos moços chamava-se peu e cantava como quem reza um salmo ao domingo, numa igreja meia vazia.

enfim, pensei, quando o ouvi. se não for o cid, é este que tem a pontuação máxima do público: depois de termos um fulano na eurovisão que fala em peidos no horário nobre, a única forma de nos redimirmos é mandar um que diga cinco avé marias antes de ir à cagadeira

e não é que acertei?

 

o j.p. simões

 

fabuloso.

e nem venham com merdas que se trata de elitismo e nhé, nhé, nhé.

a música é fantástica, o homem é genial e por mim, se ele quisesse e eu pudesse, comprava-o como meu melhor amigo para os próximos cinco anos.

é claro que a coisa psicadélica das luzes podia provocar uns ataques de epilepsia a muita boa gente.

e ia contra os ensinamentos do santo salvador de que a música não é fogo de artifício.

no entanto, podíamos perfeitamente perdoar dois ou três ataques mal feitos pelo bom que provoca em quem gosta. 

 

o janeiro

estava fartinha daquilo quando apareceu, em pleno fevereiro a lembrar já março, o janeiro.

um fulano vestido de fato macaco, com uma cena na cabeça que a ana malhoa usava quando começou a cantar com o pai. 

sei disso porque havia lá em casa uma cassete dela e quando eu era miúda punha uma meia amarrada na cabeça para a imitar. todos nós temos momentos tristes na vida.

o janeiro apareceu assim. mais um tontinho, pensei. 

só que não.

a interpretação foi magnifica, a música era lindíssima. o moço transferiu sentimento e não, não era uma cópia do salvador, tanto mais que, parece, até são amigos e cantam juntos. 

gostei. e pensei, pronto é isto, o júri vai escolher este. que escolheu. 

 

e depois toda esta minha primeira admiração foi por água abaixo.

que o festival é uma pirosada já sabemos. mas pegar nessa pirosada e atirá-la à cara de pessoas que, como eu, estavam a arrumar meias a um domingo à noite, é um bocado ofensivo.

quer dizer, no momento do anúncio dos doze pontos, o moçoilo saca de uma banana. que começa a comer. 

dúvidas:

1. onde raio tinha o rapaz a banana? no fato macaco?

2. e tinha-a porquê?

3. não alimentam o pessoal convenientemente nestes certames?

4. ou era a mamã que estava sentada à espera dele, prontinha que não lhe faltassem vitaminas? 

 

vamos lá ver: que a irreverência do sobral fosse engraçada podemos aceitar. era-o mesmo que algumas pessoas não concordem.

que ele parecia ali atirado de para-quedas sem saber muito bem como agir, é certo. e que isso parecia e podia ser genuíno é certo também. lembrem-se que tinha como antecessores a enorme sabrina e a grande lucy.

mas agora caro janeiro, tu já não estás aí sem saber ao que vais.

tu já não te estás a cagar para a coisa.

não foste só por ir.

e desprezares a coisa ao ponto de dizer "ah que se lixe, doze pontos, merecem uma banana" é um bocadito tontinho.

ridículo, diria, porque não serve de nada.

se o objectivo é demonstrar a genialidade através da irreverência tinha-lo conseguido com a música.

tudo o resto é só pequenito.

quase tão pequenito como o fato repuxado do peu a razer o pai nosso.

 

santa maria das causas perdidas nos ajude.

(a nós e ao malato que parecia ter um orgasmo quando viu el-rei dom salvador).

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